26.1.11

Ensino com classe é diferente de Ensino de Classe

Os papás, os rebentos e os caixões desfilam em prol da "liberdade de escolha", mas quase todos os que arrastam o cortejo andam enfeudados politicamente em territórios onde a tal liberdade de escolha é coisa que só funciona no sentido que lhes convém, o seu. Depois, mistura-se tudo, ensino cooperativo com particular, escolas com objectivos pedagógicos diferentes, alguns que o Público não garante, e colégios de batinha com brasão...

Quando fizerem uma manifestação a exigir igualdade para os seus filhos, isto é, o direito a terem Ensino Público, e de Qualidade, na sua área de residência, eu adiro.

Gostava de saber por que razão há escolas privadas de ensino genérico a receberem dinheiro quando há escolas públicas nas respectivas zonas, e, já agora, por que há zonas que só são servidas por escolas privadas... mas isso é querer saber muito, neste país de compadrios onde, após a privatização de tudo, os Direitos que a República consagra são o que sobra ao apetite dos negócios.

Se a escolaridade da República ainda não chegou a uma terra, sim, pode-se fazer acordos que garantam a escolaridade às nossas crianças. De contrário, "escolham", mas com outro dinheiro que não o meu. Eu pago e exijo um serviço de qualidade no ensino que dê a todos os cidadãos oportunidades iguais pelo menos nas salas de aula.

O resto cheira-me àquela estória dos salva-vidas exclusivos do Titanic.

21.1.11

A Coisa Explicada Por Miúdos

video

Explicação fácil daquelas coisas difíceis
com que os "especialistas" diariamente
nos estragam o jantar.

Como faltam poucas horas para terminar a
campanha eleitoral, fica aqui o apelo ao voto:
Vota Manuel Alegre.

Decidi-me, vou votar Alegre.

Mais uma entrada que reproduz uma resposta ao debate sobre as presidenciais no blogue "5 Dias", o blogue que mais ataca a disponibilidade do Bloco de Esquerda em apoiar Manuel Alegre, mais vezes que se vai ao Cavaco, digo eu.


Por falar em lembranças.
Ano de 2006, cenário: Eleições Presidenciais

[...]
“Sem surpresas, o candidato a Presidente da República do PCP [Jerónimo de Sousa] culpou o PS por Cavaco Silva ter tido mais de 50 por cento dos votos, afirmando que a segunda volta “estava perfeitamente ao alcance” da esquerda e que “há responsabilidades particulares” do PS no resultado. “O problema não foi a existência de várias candidaturas de esquerda. Foi a desmobilização e a rendição antecipada do PS”, insistiu.

O candidato do PCP bem que tinha avisado, durante a campanha eleitoral, que faltava “um bocadinho” para levar Cavaco a uma segunda volta. Recuperando os alertas que ao longo das últimas semanas foi deixando, o discurso de ontem à noite já era previsível. Jerónimo tinha apelado diversas vezes ao PS para que mostrasse mais empenhamento nesta campanha.

“As hesitações e posicionamentos do PS e do seu Governo desde a primeira hora contribuíram para ampliar as possibilidades eleitorais de Cavaco. As ambiguidades que desde sempre marcaram a posição do PS, a notória falta de empenhamento posta na campanha eleitoral associada ao baixar de braços e à resignação patenteada pela direcção do PS jogaram a favor do desfecho final”, afirmou.
[...]

(In http://dossiers.publico.clix.pt/noticia.aspx?idCanal=1463&id=1245603


Jerónimo de Sousa, no mesmo contexto, em entrevista ao "Público"

[...]
Quando disse na RTP que o PCP tinha ponderado apoiar uma candidatura única de esquerda, estava a pensar em que tipo de figura? Nalgum nome em concreto?

As eleições de Fevereiro deram uma derrota clara da direita. Havia a grande questão das eleições presidenciais e o comité central do PCP, na análise que fez aos resultados, chamou a atenção para a necessidade de dar resposta a um processo que estava em curso. Estava a construir-se de uma forma hábil uma candidatura de direita. Por parte das forças à esquerda, havia uma espécie de resignação, indiferença, fundamentalmente por parte do PS. Cito de memória a declaração de José Sócrates a dizer que mais lá para a frente, para Setembro, pensaria nisso. A este apelo [do PCP], que era uma disponibilidade, verificou-se pouca vontade por parte do PS. Quisemos publicamente fazer esse alerta, chamada de atenção, mas foi pouco animadora a resposta.

Mas tentaram algum contacto com o PS?

Não. Houve uma posição pública que nunca chegou a ser formalizada. Em relação à figura, obviamente nunca seria o PCP a tomar a iniciativa, dizendo beltrano ou sicrano. Seria uma figura que pudesse, com base nessa vontade de mudança e de um amplo espaço à esquerda da candidatura de Cavaco Silva, ser encontrada, ou um independente ou alguém da área de algum dos partidos.

Poderia ter sido Mário Soares?

Sinceramente, não pensámos na figura de Mário Soares, mas obviamente não íamos com uma disposição de dialogar, arrumando nomes. Antes pelo contrário, íamos com uma grande disponibilidade para um processo de convergência. Sem nomes, sem programa, mas procurando que isso fosse concretizável, tendo em conta o processo que se estava a desenrolar à direita.
[...]


(In http://dossiers.publico.pt/noticia.aspx?idCanal=1463&id=1241347


Algumas considerações:

Em 2006 o PS estaria mais à Esquerda? Não, pois não?
Ao apoiar desde a primeira hora Manuel Alegre, será que o Bloco de Esquerda não interferiu directamente na decisão da direcção do PS? Não criou condições para que as suas propostas em diversas matérias tenham mais eco junto dos trabalhadores socialistas?
Que leitura fazem do trabalho de Mário Soares “y sus muchachos”, do divórcio evidente da campanha eleitoral por parte da ala mais direitista do PS? Contradições, não há? É tudo o mesmo? Em Setúbal, por exemplo, nenhum dirigente importante do PS na cidade se fez representar quando Alegre se inaugurou a sua sede de campanha… estavam bloquistas e muita gente da base do PS que comentava o abandono dos seus dirigentes locais. Isto significa o quê, quando a campanha de Alegre propõe tão só a defesa do Serviço Nacional de Saúde e do Sistema da Ensino Público? Leiam!

Pelo aqui li, é curioso como uma corrente política que há anos, enquanto partido autónomo, criticava o esquerdismo que isolava a vanguarda operária do estado de consciência das “bases socialistas, “imprescindíveis para a revolução”, se coloque à margem da possibilidade histórica de aproximação às tais bases decisivas para a luta pelas reivindicações populares, apelando ao “patriótico” candidato do PCP , ou ao voto em branco (quanta confusão meus deus!) e alinhando na linguagem mais sectária e abjecta dos burocratas Estalinistas sobre companheiros com quem travaram lutas para terem direito a falar em plenários.
É interessante verificar em como estes “principistas” abandonam a dialéctica e se esquecem que o contrário da eleição de um social-democrata assumido é o reforço das condições de poder uníssono da direita no ataque ao que sobra do Estado Social. É isso que está em causa, não “o caçador de perdizes”, “o poeta”, o “social-democrata inconsequente”, não um campeonato de verborreia revolucionária com uns funcionários do PCP!

Numa situação perfeitamente defensiva, como é aquela que atravessamos, escolher a situação que dê mais folga à Classe Trabalhadora, colocando uma contradição na presidência da república não é a atitude certa por parte daqueles que estão na luta pelos trabalhadores e não um aumento percentual no “score” do partido?

Perceber isso é a diferença entre quem está no combate sabendo que ele é prolongado e com passos à frente e atrás, com desilusões e desfuncionamentos, funcionalismos e vícios de vida interna (que também infectam o campo de quem quer mudar – irritante, não é?), de quem quer arriscar com quem muitas vezes não pensa como nós, que não partilha da nossa pureza revolucionária, mas a quem lhe reconhecemos (no mínimo, já agora) o mesmo objectivo estratégico… e os que gostam de olhar eternamente para o seu umbigo “principista” e se sentem melhor fazendo unidade consigo próprios no conforto da seita.

Ontem aceitei uma boleia de um grupo que foi ao comício de Alegre, fiquei surpreendido com a presença de alguém que conheci a militar e há muitos anos a votar no PCP. Quando o Louçã falou, conseguindo dos momentos mais “quentes” mas cheios de conteúdo do comício, esse companheiro voltou-se para mim e disse: “só por isto valeu a pena, pôr muita desta gente a ouvir as coisas explicadas de outra maneira”. Depois vi o sorriso amarelo de alguns dirigentes do PS na televisão.
Ontem decidi-me, vou votar Alegre.
Pela vossa ajuda à minha reflexão, o meu obrigado.
E não, não estou filiado no Bloco de Esquerda. Pelo que leio aqui, ainda posso ser salvo.

87 Anos Sem Lenine


22 de Abril de 1970 / 21 de Janeiro de 1924

"Aprender, aprender sempre"


20.1.11

A pátria dos comunistas é a Classe Trabalhadora Mundial

A propósito do debate sobre a candidatura "Patriótica e de Esquerda" do candidato do PCP, Francisco Lopes. Uma resposta a uma entrada no blogue "5 Dias".


O patriotismo é reaccionário, é pensar enquadrado nos cânones da burguesia.
Perdoem-me a extensão, aí vai:


A génese do Capitalismo é a acumulação baseada num crescimento contínuo que não respeita o folclore das bandeiras colocadas em cima de linhas divisórias resultantes de batalhas passadas para satisfazer os interesses senhoriais e reais. O Capitalismo há muito que ultrapassou isso, as fronteiras são virtuais, são a cerca ideológica onde se guardam os idiotas que pensam que mandam nalguma coisa com mais importância que a gramática que utilizam. O Capitalismo está-se marimbando para “as brumas da memória” a não ser aquelas que assustaram de morte a sua autoridade. Vai e chega a todo o lado, a todo o sítio, invade tudo. É a sua natureza. Não por malfeitoria, como explicou Marx, mas por uma questão de sobrevivência. O Capitalismo só pode crescer, não pode parar de crescer sob pena de definhar e ser inferior ao tamanho da boca de outro mais poderoso, porque não há piedade na economia da selva.

Concorrencial, o Capitalismo também consegue ser “solidário”, mas na medida em que a afectação de um interesse concorrente resulte no seu próprio prejuízo. Um universalizador de “standards” ou defensor de roscas anacrónicas se se tratar de defender os parafusos que lhe sustêm a máquina. Ameaçado economicamente, defende-se com a política, com a guerra, reclama o patriotismo de antanho, tal como um merceeiro que sonha esmagar todos os concorrentes clama pela defesa do comércio tradicional quando sente um hiper às portas.
O Capitalismo inventa novos negócios que ultrapassem as coisas. Já não apenas os produtos e os serviços a eles ligados, bem mais do que a produção de alimentos e a sua distribuição, também a cultura, os tempos livres, a saúde, a morte.

O Capitalismo dá novos valores às coisas, todos se traduzem em dinheiro. Todas as nossas necessidades físicas, reais, são mercado, mas não chega: o Capitalismo investe em necessidades que não imaginamos ter, porque o objectivo do Capitalismo é satisfazer as nossas necessidades criando novas necessidades sem nunca satisfazer nenhuma. O Capitalismo é a Insatisfação Permanente.

A burguesia é a galinha e o ovo do Capitalismo. Tal como os senhores da velha ordem que derrubou, a burguesia procura convencer o resto da sociedade de que o fim do seu reino significará o fim do mundo. O mundo da burguesia, retenhamos, não é uma bola azul perdida numa imensidão de possibilidades por descobrir, é quadricolor, tricolor, bicolor, unicolor, estampado num farrapo de subjugação das vontades aos seus interesses. A bandeira é o ceptro da burguesia, o salariato o seu chicote.

Tal como a chuva, o vento, o sol, o proletariado não tem pátria. O ar que respira não é alemão, francês ou inglês, é o ar poluído da fábrica, como dizia Marx. No melhor, o ar refinado pelos filtros de um aparelho de ar condicionado projectado na Dinamarca e montado em Espanha com peças fabricadas na China.

Hoje, tal como desde sempre, a luta do proletariado só vingará se este se libertar das cadeias obscurantistas do patriotismo, unindo-se numa única nação à escala global, tal como aqueles soldados russos e alemães dos idos de 1918 que se ergueram da lama das trincheiras e se encontraram na “terra de ninguém” para cuspir sobre as ordens dos seus generais que os mandavam matar-se uns aos outros, reinventando a Comuna de Paris na Revolução Russa e nos Conselhos Operários de Munique.

Os produtores não têm mais que a sua solidariedade para opor à voracidade da globalização do lucro, a internacionalização das suas lutas é a saída. Que a besta não tenha onde se esconder!

E, para começar, neste continente velho mundo: que à bandeira estrelada a ouro outra surja, feita da cor da memória do sangue dos nossos, limpa da lama do terror burocrático por onde a arrastaram. Com uma nova estrela, não de pontas mas de luz. Sempre a velha procura da Luz.
A centelha de esperança de camponeses iletrados motivados pela fome não chegou, ficou provado. Desta feita será o Conhecimento que o proletariado arrancou da sua quota-parte do falecido Estado Social pós-morticínio.

Em tempo algum na História “os de baixo” tiveram tanta preparação técnica para governar sem terem de se sujeitar ao conhecimento dos outros, ao apodrecimento por dentro que isso significou do seu débil poder, até o perderem de todo. Quando tomar o seu destino nas suas próprias mãos, o proletariado deixará de ser a nação global, restará o que importou desde sempre: a Humanidade.

Entretanto, o que importa é a Classe, os partidos e as associações sindicais são apenas um seu instrumento, não o contrário.

19.1.11

Espaço Publicitário Dedicado aos Únicos Gajos de Esquerda deste País

A propósito dos incidentes de ontem que envolveram a polícia e sindicalistas que desmobilizavam de uma reunião sindical, reproduzo aqui, com a devida vénia, uma pérola encontrada no blogue "Cinco dias". Não sei porquê, fica à imaginação de cada um, o naco de prosa que aqui se reproduz fez-me lembrar "o único gay da aldeia" daquela série humorística da BBC "Little Britain".
Sem mais delongas e advertindo que há leituras que devem ser acompanhadas de um balde para o que der e vier, abrem-se aspas:


E os oportunistas, conseguem dormir?

Esta tarde, testemunhei a violência nos arredores da residência oficial do primeiro-ministro. Depois de um plenário de dirigentes e activistas sindicais, a polícia barrou a saída aos trabalhadores e ordenou-lhes que dessem a volta ao quarteirão. E como os direitos se defendem exercendo-os, avançámos sem medo. Atiraram-se como cães esganados. Simplesmente, porque íamos para casa por onde queríamos e não por onde eles queriam. Houve gente pontapeada no chão. Bastonadas a torto e a direito. Saltaram vários polícias infiltrados à paisana. Tudo valeu para reprimir a luta dos trabalhadores.

No fim, apesar da dura resistência, conseguiram levar detidos dois sindicalistas. Mas ninguém arredou pé. Durante várias horas, a estrada esteve cortada pelos trabalhadores. Ninguém se calou. Ninguém quis sair sem o regresso dos camaradas. A meio, apareceu a solidariedade dos deputados do PCP. Depois a mensagem da deputada do Bloco de Esquerda. É preciso ter coragem quando se anda de mão dada com os donos dos que bateram nos trabalhadores.

Esta noite, pesará a consciência a muitos polícias. A outros nem por isso. Já o governo, o PS, o PSD e o PP dormirão tranquilos. Cumpriram o seu papel. Os trabalhadores também.

E os membros do Bloco de Esquerda? Conseguirão dormir?

Fecham-se aspas.


EDITADO:


O autor da prosa acima voltou à carga. Como já fiz aqui uma excepção higiénica, limitar-me-ei a reproduzir a minha resposta.

De como a cegueira sectária não deixa distinguir o verdadeiro inimigo

Primeiro sugere-se que as deputadas do Bloco não deviam ter estar presentes na manifestação, insinua-se que o apoio a Alegre significa sustentar a carga policial. Acaso, pediu o cartão de partido a todos quantos lá estavam para ver se eram todos ideologicamente puros?
O mais engraçado é que a crítica vem de quem votou em Eanes, Mário Soares e Sampaio, e que apresentou um candidato contra Otelo quando este, apesar de tudo (eu disse: “apesar”), significava a resistência popular à avalancha da “recuperação capitalista”. Alguém aqui falou em “coveiros”?! Confidencio: eu também fiz campanha por Octávio Pato e, independentemente dos disparates de Otelo, estive errado.
Lembro-lhe que muitas lutas em Portugal foram feitas não devido mas apesar do PCP, quer que lhe lembra as greves e ocupações “reaccionárias” só porque eram decididas pelos trabalhadores e não pela esclarecida célula do partido? Ou prefere que lhe fale da expulsão de trabalhadores de plenários sindicais apenas porque queriam falar de forma diferente? Ou porque propunham uma greve geral que ainda não havia sido decidida pelo comité central? Eu fi-lo contra Judas, apesar da “avaria” do sistema de som. “Coveiros da classe trabalhadora?” Interessante adjectivo vindo de onde vem!

O seu ex-camarada Miguel Portas e outros que estão no Bloco passaram de revolucionários proletários a agentes da burguesia quando saíram pela porta do Hotel Vitória? Só para falar de gente por quem não nutro especial simpatia política. Mas não confundo.
A confusão das opções tácticas com as opções estratégicas, a incapacidade da crítica política sem se aludir à “natureza de classe” do interlocutor – que chega ao ridículo da alusão às profissões das pessoas, anedoticamente proferida por quem saiu da escola para funcionário do partido ou há 30 anos que não põe os pés na empresa. Como se a Classe Trabalhadora fosse uma marca registada do PCP! À falta de outra coisa, recomendo-lhe o”FMI” do Zé Mário – mais um gajo que não presta por não ser do seu partido, né?

Depois, afinal, é a Grécia, um voto muito discutível dos deputados do Bloco – e que, garanto-lhe pelo que sei, ainda vai ser discutido – conheço gente do Bloco que não se esquece, fazem bem. Outra vez a lama da “natureza de classe”. Como se o facto do PCP ter ficado na cadeira parlamentar o tornasse amigo da coroa espanhola! Ou amigo dos chineses por causa da recepção – bem, neste caso não duvido. Já perguntou aos seus camaradas gregos o que pensam disso, ou será que também estes já mudaram a sua “natureza de classe” ao considerarem a China um país capitalista? Pois. Vai haver uma cisão no movimento comunista por causa disso, à laia das anedotas “trotskistas”?

Só para esclarecer, o que aqui escrevi fi-lo por respeito aos meus companheiros que são do PCP e estão longe da caricatura que aqui fez… deles. E dos do Bloco, já agora.
Não percebe porquê? É a Natureza de Classe, pá.

13.1.11

FMI? Precisamos é do CSI!

Uma cena daqueles filmes em que o condenado consegue mais um tempo de vida porque a senhora das limpezas ligou o aspirador onde estava a ficha da cadeira.

Tempo é tempo, é verdade, mas o condenado está condenado. Porque o filme está feito para que o condenado seja condenado.

A polícia tinha que deter alguém, prendeu a vítima. O juiz? O juiz mandou a vítima queixar-se a alguém que não tivesse nada a ver com a Justiça… mas claro que cumpriu o seu papel institucional ao criticar a forma como os polícias usam os bonés.

Os autores da culpa do condenado andam à solta. Gente respeitável, aliás, autoridades máximas, vestem e falam como tal. Comido parte do bolo, sonham com o resto da padaria, mas desta feita sem entrarem pela janela. O condenado? O condenado condenar-se-á outra vez, tantas quantas as necessárias até que toda a farinha se esgote.

Dispenso-me de indicar o "casting" do filme. Mas, para ninguém ver o filme ao contrário, o FMI é a indemnização que o condenado terá de pagar pela sua inocência. É de um “film noire” que se trata: os maus da fita safam-se. E o clímax, é perfeito: o condenado morre convencido da sua culpabilidade.

Tirem-me deste filme. FMI? Precisamos é do CSI!

12.1.11

A despropósito

Quando um caso de assassinato de um ser humano se reduz a considerações sobre a sua sexualidade, ao “querem mandar mais que os outros” ou “querem sujeitar os outros às suas inclinações”, algo de mal se passa. Há todo um clima de intolerância não assumido que emerge e parte o verniz dos “brandos costumes “.

Mas, tal como as fogueiras de antanho, antes da histeria dos basbaques que queimavam os seus medos através do sofrimento alheio, havia quem organizasse o “espectáculo”. O espectáculo, já sabe desde os Césares, é bom remédio para alimentar as almas desanimadas pelo estômago vazio. Em tempos de crise há que distrair a raiva da origem do mal e, como a tolerância com a diferença sempre foi mais fácil de vender que o ódio, a receita nunca falha.

O “esgoto” mediático não correu apenas no anonimato das condutas blogueiras. A forma apriorística de tratar o assunto tem exemplos “respeitáveis”: lembro-me de ter visto ser rebuscado pela RTP um estudo, inédito mas muito limitado, sobre violência entre casais homossexuais. Não ocorreu aos jornalistas outro enfoque de um caso policial que não o da homossexualidade, foi como discorrer sobre “raças” acaso um dos envolvidos fosse preto.

Concluirei referindo-me tão-somente a escolhas de modos de vida: a frase “a minha liberdade acaba onde começa a do outro” é execrável, é o lema da nossa dificuldade em viver com a diferença, pressupõe o encarar das escolhas do próximo como uma manifestação de rivalidade, mesmo que aquelas não afectem as escolhas próprias - lembremos o debate sobre o casamento homossexual… Para muita gente as vidas não são paralelas mas perpendiculares. Podiam guardar para si, mas o que é triste é que nos envenenam a vida com o seu fel.

10.1.11

Não passou na televisão.

Manifestação no País Basco em solidariedade com os presos políticos bascos.
64 mil pessoas, foi o número adiantado pelos organizadores.


O Estado Espanhol quer fazer crer que qualquer tipo de nacionalismo que não aceite a jurisdição de Madrid sobre o destino do Povo Basco é pró-ETA. Não é assim pelos vistos, e convenhamos que o terrorismo não terá assim tantos apoiantes...

Entretanto, a que não será alheio o intenso debate de balanço da luta nacionalista que tem atravessado a sociedade basca, e a crítica cada vez mais sistemática do terrorismo como forma de acção política no quadro dos direitos políticos do pós-franquismo, a ETA declarou um cessar-fogo permanente.

Veremos se o Estado Espanhol, virado que está para a solução militar e policial, conforme já demonstrou demasiadas vezes, não decide defraudar mais esta tentativa de negociação da ETA ao retirar a ilação errada de que é a perseguição policial que está a dar frutos.
É óbvio o somatório de derrotas da ETA no plano militar, devido ao apertar do cerco da aliança entre as polícias espanhola e francesa, ao facto de ser proscrita internacionalmente, mas não esqueçamos que já por diversas vezes a ETA esteve "aniquilada" e ressurgiu das cinzas, qual Fénix, alimentada por novas gerações de bascos.

Madrid talvez devesse aprender com o Imperialismo Inglês na Irlanda: A rendição é algo que não se exige a troco de nada. O que aconteceu na Irlanda, com o abandono do terrorismo por parte do IRA, demonstra-o. O IRA quando negociou a paz estava longe de ter perdido o apoio popular.
Quanto aos "crimes de sangue", o terrorismo basco não tem o exclusivo nessa matéria - basta lembrar o recurso ao terrorismo de Estado, aos assassinatos por parte dos serviços secretos, como se viu nos tempos de Felipe González.

Ao perseguir jornais e partidos políticos nacionalistas bascos que agem de cara destapada e no quadro da legalidade, apenas porque são nacionalistas e não julgam as acções da ETA na perspectiva simples de um caso de terrorismo, como o governo faz, numa excepção intolerável aos direitos democráticos no Estado Espanhol, o governo do Reino de Espanha acaba por fomentar a ideia de que é impossível negociar ou votar a independência e, em última análise, dar razão às justificações do terrorismo.
Só há uma saída para a paz no País Basco: a amnistia total, a entrega das armas e o referendo democrático. Têm de ser os bascos a decidir do seu futuro, não o Governo do Reino nem os "robins dos bosques" que se substituiem à acção colectiva do Povo Basco.


Acerca do título do "post": É compreensível, a jornalista residente em Espanha é "a correspondente da RTP em Madrid". Não precisam de dizer mais nada.

6.1.11

Bloco de Esquerda contra aumento das tarifas dos barcos para Tróia

COMUNICADO
As sucessivas intervenções do Bloco de Esquerda alertaram para a intenção de roubar Tróia aos setubalenses.
As acções que levam à concretização dessa intenção não tardaram.
Os aumentos brutais dos transportes fluviais fazem parte do projecto de escorraçar os não-ricos do paraíso natural, que está em vias de deixar de o ser, vitimado por intervenções grosseiras, camufladas de boas intenções e de falsas promessas de emprego.
Com o aval governativo e autárquico, a sofreguidão cega dos especuladores não vê que está a matar a galinha dos ovos de ouro.
Os rendimentos sazonais são flagrantemente insuficientes para garantir a sustentabilidade do empreendimento e dos empregos.
O aumento dos preços dos transportes fluviais, que faz parte da acção discriminatória, resulta inevitavelmente em mais um fiasco empresarial, social e ecológico, e num prejuízo inqualificável para os moradores da Península de Tróia.
Não se aprendeu nada com os exemplos de fracasso do passado e repetem-se erros estratégicos por deslumbramento e megalomania.
A Comissão Coordenadora do Bloco de Esquerda do Concelho de Setúbal repudia veementemente o aumento especulativo das tarifas do transporte fluvial entre Setúbal e Tróia e todo o projecto de roubar Tróia aos setubalenses.

Tróia cada vez mais longe

Chama-se aqui a atenção para um artigo de opinião sobre Tróia, escrito pelo jornalista de "O Setubalense" Florindo Cardoso: "Tróia aqui tão perto… mas tão longe".

"O Império Contra-Ataca"

Uau! Há muito que não se ouve alguém do PSD e do CDS falar de bancos e outras coisas “submersas”... veio Teresa Caeiro à SIC, e conseguiram logo várias capas! (aqui e aqui), mas lê-se os artigos e de "sumo", nada.

Afinal, o escritor Manuel Alegre escreveu algo acerca da sua relação com o dinheiro, viu que era publicidade - coisa que como deputado não podia fazer - e devolveu o dinheiro. A notícia, onde está? Talvez o facto de se tratar da relação de um candidato presidencial com um banco. Hum...

Ou a possibilidade de desviar a atenção das notícias que não interessam: como é possível ganhar-se mais de 100 por cento num "investimento" contrariando a vulgata da economia do "não há almoços de borla"? Qual a razão que leva um presidente “especialista” deixar nacionalizar os prejuízos fraudulentos de um banco deixado em ruínas, ficando de fora os activos?

Não me admira: Alegre enfrenta alguém que já se aproveitou miseravelmente de um funeral (o de Sá Carneiro) para efeitos eleitorais, um ex primeiro-ministro que tinha um "comissário" (Marques Mendes) que apontava o alinhamento do telejornal da RTP. Agora com a SIC a apoiar Cavaco novos episódios se esperam - eu já percebi o teor das "reportagens". A verdade? Nunca antes das eleições.

Afinal aquela dos americanos sobre os jornalistas portugueses no Wikileaks - "são muito suaves" - é verdade?

Sede jornalistas, não reprodutores acéfalos do que os outros insinuam e querem que vocês escrevam. Pesquisem, investiguem, é isso que nós esperamos de vocês. Papagaios vendem-se nas lojas.

5.1.11

Quem não tem vergonha todo o mundo é seu.

Cavaco diz apresentar-se de "consciência tranquila e cabeça levantada"
DN de 5/1/2011

Não me espanta pois que Aníbal, porventura a personalidade mais inculta que um dia entrou no palácio presidencial, diga depois das dúvidas que imperam sobre os seus negócios que está tranquilo. Ele até pode estar tranquilo, eu é que não fico nada satisfeito com um candidato a presidente que se recusa a esclarecer dúvidas em nome de uma qualquer superioridade moral. Aníbal não tem créditos para tal invocação, tanto mais que no que à cultura confere Aníbal enfim… Como diria Baptista Bastos ”é um político severo, austero, hirto e denso” mas não “um homem culto, lido, cordial e descontraído”.
Calhando estamos falando de conceitos de consciência diferentes.
Vá lá saber-se o que entendem certas pessoas por consciência?
Aníbal, por desdita nossa, pode ser apenas um incidente na nossa vida colectiva, talvez seja mesmo uma grotesca representação de um povo sem tino ou até uma mera contingência politica negativa – Com responsabilidade de Soares e Sócrates. – mas jamais se pode furtar às responsabilidades, ou a esclarecer as duvidas que se levantam em torno da sua saúde económica.
No que confere à ética e à moral não é concebível, admissível ou justificável que se distancie dos amigalhaços – de alguns – como se de maçãs podres se tratasse. Sabemos como lidou com Santana, a “má moeda”, bem como com os que suportaram o fardo em que transformou o PSD após 10 anos de poder. Aí, mas não só, portou-se muito mal, sem ética e sem solidariedade. Mas esse é um problema dos militantes do PSD, eu como não sou militante nem próximo, não me imiscuo na vida interna daquele partido.
Porem as suas amizades e relações com os homens do BPN, tendo em conta os crimes perpetrados por aquela gente, já configura uma questão nacional. Questão nacional, porquanto em função das contingências da luta politica e da ambição desmedida de alguns, fizemos dele o Presidente da nossa República.
Em nome dessa contingência ou da nossa desdita, Aníbal tem que prestar contas, tem que esclarecer, tem que falar. Mais que invocar tranquilidade e consciência tem que por preto no branco.

[Também editado no "Ribeiro da Fonte"]

3.1.11

As bombas da Cobardia têm rastilhos de Intolerância

A propósito do atentado cobarde sobre uma igreja cristã no Egipto, perpetrado por fanáticos muçulmanos nos primeiros alvores deste ano, proponho a leitura do artigo de opinião de Leonídio Ferreira no "Diário de Notícias", um artigo que percebe a diferença entre Inteligência e uma lata de gasolina.

Contrasta bem com o que podemos ler por aí na imprensa, onde se manifesta gente de caixinha de fósforos nas mãos, pronta a deitar fogo ao que sobra de diálogo e tolerância interconfessional, num afã que relembra a histeria dos que não há muitos anos iam diariamente ao Terreiro do Paço pretendendo ver vingada a sua desgraça nas chamas que consumiam os "pecadores" e os "infiéis".

Aos iludidos, aos que pensam que apenas o Islão produz imbecis, caberá perguntar se não confiam que justiça divina (de Deus, Alá, Jeová...) seja tão generosa que a Estupidez foi distribuída equitativamente por todos os credos, géneros e "raças"...

Concidadãos de todas as religiões, não desarmem: gente recalcada com o ódio às minorias (estas, pelo facto de o serem, estão mais "à mão") é o que não falta por aí. Aos fanáticos da "cor" não basta a rivalidade acéfala do futebol, querem sangue. Fizeram um "lindo serviço" na Alemanha. As bombas da Cobardia têm rastilhos de Intolerância