30.7.09

Agenda

Recebemos este amável convite que aqui se reproduz


Concerto

The Logadogue Swing Project

Sexta-feira, 31 de Julho, às 22 horas
na Feira de Sant'Iago

Palco Praça Mundo


Apareçam!

The Logadogue Swing Project

Nuno Castelo & Luís Cansadinho

www.myspace.com/logadogue

nonnius@gmail.com

Agenda

Recebemos o convite que reproduzimos.

(o convite foi editado por nós de forma a ser mais fácil de ler)


A Prima Folia – Cooperativa Cultural, sedeada em Setúbal, é uma Organização Não Governamental sem fins lucrativos, dedicada aos direitos humanos, aos direitos sociais e aos direitos culturais das pessoas. A sua acção tem sido extremamente diversificada e plural, tanto no âmbito da intervenção social como na promoção e produção cultural.

Este projecto/movimento de renovação cultural e mental irá comemorar o seu II Aniversário com um espectáculo cultural que vai ter lugar nos claustros do Convento de Jesus, chamado Infinita Folia, no dia 1 de Agosto 09.

A programação inicia-se às 17 horas, no Largo de Jesus, com uma demonstração de Skaters, pela Escola de Skaters do Largo,

Às 18 horas, já nos claustros, a representação da peça infanto-juvenil A trupe do Elefante prova como o sal é tão valioso como o amor da princesa, pelo Teatro do Elefante.

Às 21 horas retoma-se a programação com uma breve declamação de poesia, por António Galrinho, poeta e Graziela Dias, do Teatro Estúdio Fontenova.

Depois, os concertos:
Pedro e Diana são um duo alfacinha que faz da cantiga uma arma lúdica que se contrapõe às muitas injustiças do quotidiano.

Azevedo Silva
é um músico incontornável dos meios de vanguarda das urbanidades lusas, fiel depositário da cantiga de intervenção revitalizada pela perspectiva alterglobalista para o Século XXI.

Marco Alonso
, guitarrista setubalense que acaba de lançar o seu primeiro álbum, é um exímio intérprete da guitarra e da renovação do próprio flamenco. O recente reconhecimento público é resultado de uma formação sólida e de um domínio magistral da técnica.

Os Bardoada
são um grupo de percussionistas de Pinhal Novo que utiliza nos seus ritmos populares os bombos, os timbalões e caixas. Nasceu em 1997, após uma formação com Rui Júnior, fundador dos “Tocá Rufar”.

Raw Seed Jam
é uma experiência Jam, constituída por vários músicos de créditos bem firmados, todos eles setubalenses, que, em improvisos, tentarão fundir os ritmos próprios numa linha melódica experimental e alquímica.

A entrada para todos os espectáculos é gratuita, sendo que o mesmo se destina a todos as pessoas, de todas as idades. Trata-se de uma partilha e uma forma de reconhecimento pelo apoio e carinho recebido pela população, sem a qual não teria granjeado a respeitabilidade e honorabilidade na cidade onde este projecto/movimento nasceu.


Com apoio da Câmara Municipal de Setúbal; Museu de Setúbal/Convento de Jesus; IPJ de Setúbal; Pro Sounds – Audiovisuais; Teatro Elefante; Teatro Estúdio Fonte Nova; Escola dos Skaters do Largo; Grupo Sarrafo – Os Bardoada e a Livraria Universo.

Setúbal, Um Novo Dia

Já tínhamos colocado aqui uma ligação para o sítio setubalense da candidatura do Bloco de Esquerda às eleições autárquicas nas "Recomendações do Monstro", agora colocámos aí à direita a "imagem" do sítio - basta clicar e "viaja-se" para lá.
"Os amigos escolhem-se", pusemos por cima. Foi de propósito: aos amigos não se exige que concordem sempre connosco, mas exige-se que não estejam à espera que concordemos sempre com eles. Nós escolhemos.

29.7.09

Agenda.

Apresentação dos candidatos do Bloco de Esquerda às Juntas de Freguesias de Setúbal.
Hoje, 29 de Julho, às 18 horas. O local: Bar MXL.

O bar fica no jardim da beira-mar, junto à "asa do avião".
Para quem não sabe, a "asa do avião" é o nome por que ficou conhecido popularmente o abrigo do antigo embarcadouro dos barcos "convencionais" para Tróia.

Contribuição para o debate acerca da localização da Feira de Sant’Iago

O texto que se segue foi publicado ontem no sítio setubalense da candidatura do Bloco de Esquerda dedicado às eleições autárquicas . Trata-se de um texto de opinião que não reflecte a posição oficial da candidatura do Bloco de Esquerda. O facto do texto ter sido publicado só prestigia o partido.

"O candidato do PSD, Jorge Santana, assim como a candidata do PS, Teresa Almeida, decidiram trazer a localização da Feira de Sant’Iago para o debate eleitoral autárquico. Ambos os candidatos já fizeram questão de prometer solenemente o retorno do certame ao local onde esteve durante muitos anos, a Avenida Luísa Todi. Para “respeitar a vontade dos setubalenses”, dizem.

A possibilidade da feira ser deslocalizada para outro local que não o centro da cidade já havia sido avançada por Mata Cáceres, no final dos três mandatos em que o PS ocupou a cadeira da presidência. O contexto em que fez essa suposição foi o das queixas de moradores da Avenida Luísa Todi, vizinhos da feira, quanto aos ruídos produzidos pelos equipamentos e até contra a utilização das entradas dos prédios como WC públicos.

Para além dos problemas de ruído e sanitários, havia outra questão a que dar resposta: a realização da feira em plena avenida obrigava ao encerramento de um dos sentidos do tráfego automóvel em parte substancial da artéria. Considerando que a data da feira coincide com uma época em que o movimento automóvel em direcção às praias da Arrábida se faz com mais intensidade, havia também um sério problema de trânsito. Aliás, nos dias em que a feira tinha mais movimento, o problema amplificava-se de sério em caótico, com viaturas estacionadas por tudo quanto era nesga de espaço, o corolário-mor dessa cultura dominante em Setúbal segundo a qual os peões foram inventados só para atrapalharem o usufruto dos passeios pelos automóveis.

Carlos Sousa, presidente eleito e destituído pela CDU, decidiu construir um local de raiz para a realização da Feira de Sant’Iago, na localidade de Manteigadas, na fronteira entre a zona urbana e “rural” do concelho. Para tal, foi constituída a “Associação Parque de Sant’Iago” constituída pela a Câmara de Setúbal, a Associação Empresarial da Região de Setúbal ( AERSET) e a Região de Turismo de Setúbal Costa Azul (RTS). O então vereador do turismo, André Martins, da CDU, explicava, em Junho de 2004, ao digital “Setúbal na Rede” que o equipamento iria “projectar Setúbal a nível regional, nacional e, mesmo, internacional” .

Logo naquele primeiro ano de feira nas Manteigadas muitos populares torceram o nariz ao local: devido a uma integração social “exemplar” feita pelo PS na zona o bairro já ocupara por diversas vezes a página de assuntos policiais dos jornais do burgo; por outro lado, a proximidade da Bela Vista também contribuía para retirar solenidade aos carroceis e às barracas das “farturas”. Os comerciantes, no entretanto, tentaram tirar partido da situação protestando contra os preços que a câmara pretendia cobrar pela estada de quinze dias na feira.

Mais tarde, apesar da capacidade alargada de estacionamento, não se conseguiu evitar que a avenida António Sérgio tivesse trânsito automóvel congestionado… nos passeios. Como o estacionamento era pago e mal vigiado (ocorreram queixas de assaltos a viaturas) e com medo de deixarem o carro “no escuro”, muitos automobilistas enfiaram as viaturas no interior do bairro da cooperativa ao ponto dos moradores não conseguirem entrar. Houve mesmo quem chegasse e desse com um automóvel estranho estacionado no interior do seu quintal… Esta situação foi corrigida nos anos posteriores, por pressão da cooperativa, com o controlo de entrada de viaturas no bairro – mesmo assim, com muitos estranhos resultantes dos muitos livre-trânsitos emitidos pela câmara…

Instalada numa encosta que tem do outro lado uma área habitacional, uma autêntica caixa de eco, seria de esperar que a feira tivesse um impacto sonoro negativo junto dos habitantes mais próximos. Tal obrigaria a que se tomassem algumas medidas. Todavia, a realidade demonstrou que isso não constou das preocupações dos instaladores.

Pelo contrário. E chega-se à face menos visível do funcionamento da feira, que foi denunciada mas que não teve eco nesses defensores dos “interesses dos setubalenses”: a forma como a feira conviveu com a população mais próxima.
Deixou-se que os vendedores instalassem megafones virados para as casas das pessoas, colocaram-se altifalantes do sistema de som da feira a pouco mais de três metros dos quartos das vivendas. E, a julgar pelo volume da cacofonia, o controlo de decibéis permitidos pelos equipamentos – uma obrigação camarária – foi inexistente.

Para se compensarem os comerciantes pelos danos da “deslocação”, aumentou-se o horário nocturno do funcionamento da feira e, como se tal não chegasse, permitiu-se que horas depois do fecho do recinto ficassem no interior do espaço alguns feirantes foliões a desrespeitar o sono das casas próximas. A “sensibilidade” foi ao ponto da recolha do vasilhame ser feita a meio da madrugada no meio dos estrondos de vidros a partir – situação que foi corrigida depois dos protestos dos moradores.

Entretanto, as respostas da direcção da feira a quem se queixava indiciava que o motivo resultaria da “má vontade”, apesar dos locais começarem por argumentar que concordavam com a feira no local…
A câmara foi questionada directamente quanto à qualidade de vida resultante da forma como o evento estava a ser organizado, o resultado foi a colocação de algumas árvores esqueléticas entre a feira e as habitações. “Vão insonorizar, mas não é para já”, advertiu avisadamente o vereador “verde”, André Martins.

Apesar do rol de desfuncionamentos e incapacidades camarárias, não tenho dúvidas que se se fizesse uma sondagem a maioria dos habitantes locais concordaria com a feira nas Manteigadas. Acredito, também, que parte da população setubalense ainda tenha saudades da feira na Avenida Luísa Todi – excepto aqueles que se queixaram da confusão, do barulho e da higiene…

Se há algo que caracteriza os setubalenses é a nostalgia. A lembrança do peixe abundante nas águas do rio, dos pescadores e das docas cheias de barcos, das fábricas a laborarem e dos fim-de-tarde das ruas apinhadas de gente que vinha do trabalho, da voz das pessoas e das televisões que saíam à noite das casas do centro da cidade, do tempo em que se ia a Tróia sem se raspar o fundo da carteira… sim, provocam nostalgia. Mas o retorno da feira para a Avenida Luísa Todi é fraca compensação pelo que se perdeu.

Setúbal já não é a mesma de outrora, nas actividades económicas e nas zonas onde vivem os setubalenses. Já não é só centro, alguns “bairros nobres” à volta e o povo pobre nas encostas. Setúbal cresceu… em direcção às Manteigadas, e a Freguesia de S. Sebastião, onde fica este bairro, é a maior da cidade e a maior do país, em população e em problemas. Problemas de Setúbal.

Conhecendo-se a forma, sempre discriminatória, como os partidos que agora reclamam o regresso da feira à Avenida Luísa Todi trataram a zona nascente de S. Sebastião, não admira que sintam que a Feira de Sant’Iago nas Manteigadas não seja a “sua” feira. Por uma razão simples e subconsciente: não consideram que ali, bairro suburbano de trabalhadores e desempregados, de minorias étnicas, seja Setúbal.

Ao contrário deles, do PSD, do PS e, como não podia deixar de ser, do PP, entendo que está “ali”, em S. Sebastião nascente, o desafio maior para quem pretende governar a cidade. Tirar a feira “dali” não seria “restituir a feira aos setubalenses”, seria roubar a feira do sítio onde há mais setubalenses… e passar-lhes um atestado de menoridade cidadã.

Quem assim pretende agir, desta forma “populista”, demonstra, pura e simplesmente, que não tem mais projecto para a cidade que não a demagogia barata. Para não falar do que se esconde atrás dessa fachada de “tradição”: o preconceito mais abjecto.

Falar da Feira de Sant’Iago para a melhorar, denunciar a falta de respeito da câmara para com os vizinhos da feira, essa seria a forma responsável de fazer política. Assim, “tradição” o tanas, caça ao voto com as piores armas. Tenham vergonha na cara."

Assinado por
José Carlos Tavares da Silva

25.7.09

A Esquerda que lava mais branco

Esta imagem encontrei-a num blogue sobre tecnologia ecológica, quando andei à procura de uma imagem de uma máquina de lavar. Posso dizer que o objectivo do inventor foi o de aproveitar directamente a água da roupa suja para empurrar a m... da sanita para baixo. A ideia até será meritória, mas é pouco provável que haja muita gente a querer ter os dois propósitos tão perto um do outro.

Quase desisti da utilização da imagem até perceber a metáfora. Retrata bem a moda política que anda por aí a ver se pega: a de que se deve votar no PS como "voto útil" contra a Direita.

Só podem estar a gozar, perguntará quem votou no PS para ver o Código Laboral de Bagão Félix alterado, ou quem já se apercebeu que depois do trabalho não lhe sobrará muita vida devido às alterações feitas na idade da reforma... Como se os eleitores fossem estúpidos e não soubessem identificar uma política de direita quando lhe sentem as consequências, seja quem for que a pratique!

Que o PSD "ganhou as as eleições europeias" e que a Direita se vai apresentar juntinha à volta de Santana Lopes. A chantagem, pura e simples. Parecem propor-nos: "Política de Direita, sim, mas feita pela Esquerda."

Querem que esqueçamos que tivemos o pior de quem esperávamos coragem e mudança, que voltemos a entregar o voto a quem se utilizou dele como arma contra nós.
Pugnam contra "o voto da vingança", que o mal feito foi "com boa intenção". Mercantilizou-se o ensino e privatizou-se a saúde, tal como Direita faria. Aumentou-se a precariedade do Trabalho, tal como a Direita faria. Perseguiram-se os desempregados e foi-se benevolente com os banqueiros... por distracção? Querem, esses "realistas" fazedores de opinião, que lhes sigamos as preocupações quanto à possibilidade da direita "regressar ao poder"... Regressar o quê e aonde? Que raio chamam a isto que tem esmagado as nossas vidas?

Contrata-se a peso de ouro marqueteiros políticos et voilá! Qual nova embalagem, o PS recupera a sua face esquerda, modera o discurso para quem foi agressivo: para os mais fracos. E preocupa-se com o "social". Até, veja-se bem, com as "questões fracturantes"... desde que não fracturem muito. Ao mesmo tempo, o processo de lavagem em curso na internet e na imprensa.
É o detergente dois em um: lavagem e amaciador.

Amaciar. No meio do bafio acrítico e (atrevo-me) acéfalo com que tem decorado o parlamento, o "novo" PS vem apresentar intelectuais "independentes" - que sempre apoiaram o PS, mas enfim... E também - fiquem confundidos os que acreditam que o Pai Natal é de Esquerda só porque veste de vermelho! - até pessoas da esquerda imobilista que, confundidas com a governação do PS à Direita, se autoconvenceram que haviam sido elas a irem para a Esquerda.

Convencidas, qual "cristãos novos", distribuíram acusações de dogmatismo a torto e a direito, apontaram culpados por derrotas em batalhas em que não deram um tiro. Armados de teorias sociológicas main stream procuraram moldar a Esquerda à sua imagem e apagar-lhe a memória, tentando retirar-lhe do código genético aquilo que a diferencia da Direita, o que torna iguais um preto e um branco, um homossexual e um heterossexual, uma mulher e um homem: A Classe.

Perante a resistência dos resistentes em cuspirem na sua própria vida, ao não serem coroados de salvadores pelos que pretendiam salvar do sonho revolucionário "falhado", o velho "realismo" regressou. Abandonaram e acusaram os que tiveram a coragem de erguer bandeiras que outros teimam em manter fechadas nos armários irreverentes das organizações de juventude, e regressaram ao seu velho métier de oposição moral às injustiças da sociedade. Retornaram ao sítio que justamente abominaram: à cama acolhedora mas promíscua do PS. E pagam o preço desprezível do retorno: sacrificar no altar do tráfico eleitoral e das influências lobistas a "irredutibilidade" de quem os acompanhou nas lutas que quiseram travar sem lhes pedir nada em troca.

Ao contrário de deplorar - não há que lamentar a lei da natureza segundo a qual tudo procura encontrar o seu lugar -, noto na sua atitude a vantagem das coisas ficarem mais claras. E se a clareza faz falta neste país!

Quanto aos outros, não lamentem, desenganem-se:
A Emancipação dos Trabalhadores não sairá na Farinha Amparo!

20.7.09

Acerca do atraso das obras no cine-teatro Luísa Todi

Concordo com a ideia de manter a arquitectura do edifício Luísa Todi, modernizando-o com novas valências. De facto, Setúbal tem necessidade de uma sala de espectáculos modernos, e a recuperação do Luísa Todi peca apenas por tardia.
Repugna-me o aproveitamento político do atraso da obra por parte do partido que governou Setúbal durante mais de década e meia e que sempre subvalorizou a cultura em Setúbal, o PS - ressalvo aqui a aquisição do Cine Charlot, um dos poucos aspectos positivos da regência do PS. Há, todavia, um problema que não pode ser escamoteado: a água que apareceu na zona das fundações.
Não sou engenheiro mas sei, como qualquer setubalense minimamente informado, que a possibilidade de se encontrar água quando se escava na zona da avenida e na várzea não é uma possibilidade extraordinária, é uma certeza. Por isso, sem pretender vir "tirar partido" da situação, creio que no mínimo houve algum "optimismo" em relação aos prazos, para não falar de algum facilitismo técnico na preparação da obra, que se traduzirá, como é costume, no aumento do seu custo. Esta seria a crítica que a meu ver deveria ser feita.

Quanto à guerra entre o PS e a CDU a propósito desta obra, é um "fait divers": ambos hipotecaram a possibilidade de Setúbal ter um anfiteatro moderno ao ar livre no Parque José Afonso. Aquilo que ali está, o célebre "túnel de vento", é um monumento ao mau gosto e ao despesismo. Quem tenha dúvidas atente no simples facto de que, para se ouvir uma banda tocar, ser necessário montar um palco ao lado do local que supostamente devia servir para isso. Setúbal sofre com tanta falta de visão.

Expresso também o meu desejo de que o Luísa Todi não venha a ser a casa exclusiva de uma companhia de teatro desta cidade, o TAS. Felizmente que há mais gente a defender as artes performativas nesta cidade.

Texto de um comentário no jornal "O Setubalense"
assinado por José Carlos Tavares da Silva

15.7.09

Nem toda a água de um rio apagará a memória


(clicar na imagem para aumentar)
Imagem "emprestadada" pelo blogue "Preia-Mar"

Primeiro Acto.
A coisa começou com a reportagem da RTP sobre uma visita de barco a Tróia organizada pelo Bloco de Esquerda, uma iniciativa com a intenção de mostrar ao país que o empreendimento Troia Resort está a ter como consequência clara a expulsão dos setubalenses das areias da península. Na reportagem, o jornalista do canal público afirmou que “o bloco critica as câmaras comunistas de Grândola e Setúbal”. Um erro: a câmara de Grândola é, desde há anos, dirigida por um presidente eleito nas listas do Partido Socialista, Carlos Beato.

Não sei se a informação da voz off da reportagem teve origem nalguma voz in dos autores da iniciativa política. Sendo o comentário da reportagem da responsabilidade do jornalista, o que nele é dito afecta só a sua credibilidade, mesmo que o tenha ouvido em discurso directo de um dos intervenientes. Aos jornalistas é exigido que não acreditem em tudo o que lhes é dito. É por isso que não basta ter-se uma câmara e um microfone para se ser jornalista.

Assim, se é lapsus linguae de político, dependendo da circunstância, deve ser corrigido na altura e o “produto final” apresentado aos telespectadores com rigor. Chama-se a isso saber distinguir a Notícia do fait divers – está bem, dirão alguns, conhecendo-se o jornalismo que se faz por aí, na base do bizarro, isso faria “ganhar o dia” a muitos portadores de microfones e carregadores de câmaras da nossa praça; todavia, se é referência mal-intencionada, o jornalista deve denunciá-la: “Os autores da iniciativa política nem sabiam quem mandava politicamente do outro lado do rio”. Isto seria uma notícia, mas não foi isso que aconteceu.

Se um jornalista não deve ser um megafone de tudo o que lhe é dito, um comentador não deve acreditar em tudo o que vê na tevê: dias mais tarde, o coordenador nacional autárquico do Bloco de Esquerda, Pedro Soares, também “entregou” a Câmara de Grândola ao PCP na sua coluna de opinião no “Jornal de Notícias”.

Se de uma reportagem se espera rigor, já que a sua falta assassina a credibilidade de um órgão de informação, de um artigo de opinião só se espera ver discutida a opinião, não a fiabilidade das informações que incluiu no argumentário. Parafraseando José Mário Branco, se um artigo de opinião é “uma arma”, não faz sentido dispará-la contra os próprios pés.
Disto isto sobre isto, fico-me por aqui sobre isto.
Rigor, minha gente. Avancemos.

Segundo Acto.
Miudezas, pensarão os que me lêem.
Não é bem assim. Em Tróia está a ser cometido um crime lesa-património ambiental e humano perante a vista de todos. Convenhamos que ser acusado indevidamente de participar ou calar o acto não será agradável para um partido de Esquerda. Entretanto o Pedro Sales já corrigiu o que escreveu na reprodução do seu artigo no Esquerda.net. Um conselho de amigo: devia começar por fazê-lo na sua próxima rubrica no “Jornal de Notícias. Rigor, lembra-se?

Terceiro Acto.
Parte dos militantes do PCP não acreditou na correcção e aproveitou o ensejo para dar continuidade, na base, à campanha que o seu “Avante” continua a fazer contra o Bloco de Esquerda, pelo menos a julgar pelo agitar constante das ondas da Net, onde o caso continua a ser “escalpelizado”, com calúnias e ofensas a tudo o que faça alusão ao Bloco de Esquerda.

Para certas pessoas do PCP, nem a denúncia sistemática de Tróia como crime do Privado contra o Público por parte do Bloco o faz merecer ser de Esquerda. Isso é que conta. O resto, os enganos quanto aos donos das câmaras municipais, é tempero para indefectível comer, areia para os olhos. Deixemo-nos de tretas e falemos do que interessa.

Quarto Acto.
Falemos então de areia, da areia de Tróia. Regressemos uns anos atrás, quando as torres da “Soltróia” ainda estavam para ser implodidas e o negócio ainda se fazia nos corredores apressados do governo de Sócrates.
Nesses tempos, do outro lado do Sado, no Concelho de Grândola, a sede do município tinha um presidente chamado Fernando Travassos. Este sim, da CDU, que dizia “bater palmas” ao projecto do Troia Resort. Preto no branco. A entrevista está disponível no “Setúbal na Rede”.

Ao contrário de alguns militantes do PCP que não perdoam os pecados individuais de qualquer membro ou candidato do BE, mesmo que independente, para daí teorizarem sobre as “origens de classe” de todo um partido, aqui deste lado procura-se encarar a coisa de outra maneira: distingue-se opiniões pessoais de posições oficiais, porque não se confunde prática política com arregimentação de carneiros acéfalos e obedientes.

Por isso afirmo, sem ironia, que tenho a certeza que muitos militantes do PCP não se reviram na opinião do “seu” presidente de câmara de Grândola. Atrevo-me mesmo a especular, não passa disso, que nem Fernando Travassos diria o mesmo do projecto de Tróia sabendo o que vai por lá hoje.
A gente do PCP, tal como a gente do Bloco de Esquerda, pagará o mesmo preço do bilhete de barco. É isto que conta. Mais uma razão para a presidente da câmara de Setúbal, do PCP, não ter deixado o Bloco a “pregar” sozinho contra Belmiro. Se fosse ao contrário, não duvido, “o bloco estaria feito com os interesses do grande capital”.

Epílogo.
Todavia, e para concluir este texto que já vai longo, atribuo a chegada tardia à luta por Tróia, por parte de Dores Meira, a uma lógica que está a levar à ruína a “honestidade e competência” com que os eleitos da CDU se apresentam ao eleitorado: a cedência à lógica do populismo e a procura desmesurada do prestígio e da credibilidade junto de quem a Esquerda sempre elegeu como adversários, os especuladores.

Vimos isto, também e infelizmente, na incapacidade do executivo do PCP de Setúbal se ter demarcado da “Nova Setúbal”, apesar do PCP da oposição ter sido o único partido a votar contra a urbanização, através da sua vereadora Regina Marques. O PCP, no poder em Setúbal, devia orgulhar-se disso, e não trair um voto de Esquerda consequente que já foi o seu. O PCP, na oposição em Grândola, devia autocriticar-se da posição que tomou quando era governo.

Autocrítica não significa autoflagelação, tampouco fraqueza de convicções, é um sinal singelo de que as celulazinhas cinzentas funcionam. Como todos sabemos, quando um cérebro deixa de funcionar resta ao corpo apenas o nome por que é conhecido. É muito pouco para se viver.


Publicado por
José Carlos Tavares da Silva
no "Setúbal Um Novo Dia"