14.6.08

THANKS GUYS!

Depois da vitória do "Não" no referendo ao Tratado de Lisboa realizado na na Irlanda (sim, um referendo igual ao que o Sócrates prometeu antes de ser primeiro ministro), é ver os comentadores de sempre nas televisões do costume a contestarem o resultado. Os argumentos que ecoam por aí já dizem algo do "cambalacho" que se prepara.

Nuno Rogeiro questionava há pouco na SIC se um pequeno país podia decidir pelo resto da Europa... dá vontade de rir! Topem, o único sítio onde a população foi consultada directamente mandou o tratado à urtigas;
Mais, depois dos "fundos estruturais" os mal-agradecidos dos irlandeses votaram "Não". Afinal o dinheiro da Europa é para comprar as pessoas. Sabe-se que não gastaram pouco na Irlanda, já sabíamos, não era preciso insistir.
E mais ainda, os malvados do "Não" fizeram campanha baseada em coisas tão desagradáveis como aquela de dizer que o tratado de Lisboa consagra o liberalismo selvagem e quer "privatizar tudo" - sim, a Saúde e por aí afora...
Uma coisa é certa, sabendo-se que é verdade que o tratado do Sócrates, do Durão Barroso e companhia prevê atacar os serviços públicos, se calhar até terá sido voto avisado pelo menos de quem não dispõe de um seguro de saúde como o Nuno Rogeiro terá.
E isto para não falar daquela de que os irlandeses têm muitos familiares nos Estados Unidos e que os americanos por via da diáspora estariam a procurar atrofiar a Europa...
O Nuno Rogeiro que vi no início da Guerra do Iraque mostrando na SIC a sua colecção de miniaturas de aviões militares era muito mais divertido. Não me lembro em que qualidade de especialista ele falava na altura: de miniaturas, de aviação em miniaturas, de estratégia militar em miniaturas... (de qualquer forma a SIC não costuma ser muito exigente com os seus especialistas, desde que concordem com a sua Agenda).

Conforme o acima, as primeiras declarações de ressentimento pelo "Não" irlandês foram proferidas pelos que têm menos vergonha, mas já indiciam o que por aí se prepara. Que "o voto só vale quando decide a nosso favor", disso já sabíamos; mas que o mesmo se aplicasse à Democracia... Está bem, pronto, também já sabíamos. "Nada de novo na Frente Ocidental".

O inglês não é grande coisa, mas eles percebem:
Thank you very much Irish People!

12.6.08

"Parabéns, Irlanda, por votares num referendo que foi negado a 486 milhões de europeus"

"Parabéns, Irlanda, por votares num referendo que foi negado a 486 milhões de europeus", lê-se segundo o DN num dos cartazes que engalanam as ruas de Dublin. É que a Irlanda é dos poucos países que vai a votos sobre o Tratado de Lisboa. Entretanto, os lisboetas festejam a quase-passagem aos quartos de final do Euro 2008.
Os irlandeses em matéria europeia são uns atrasados!

4.6.08

"Onde é que estavas" quando te procuraram estupidificar (outra vez) com o futebol?

Com a devida vénia,
Baptista-Bastos em crónica de opinião no Diário de Notícias:

OS HERÓIS DO REGIME


O alarido em torno da selecção nacional de futebol chega a ser indecoroso. No último domingo, então, o caso foi ameaçador: as três principais estações de televisão consagraram horas e horas à viagem dos futebolistas entre Viseu e Neuchâtel.

Gilberto Madaíl, esse homem fatal, sempre insaciado de banalidades, assertoou uma série de dislates, com o ar grave de quem vai influir nos destinos da Pátria. Scolari, místico, iluminado por todas as Imaculadas, às quais costuma rezar com transporte e fervor, declarou a sua eterna gratidão a um povo tão ligado àquele grupo de "heróis", e tão estremecido quando a Bandeira é içada e A Portuguesa entoada com as estrofes trocadas.

Marcelo Rebelo de Sousa, professor de múltiplos interesses e ávidas curiosidades, pediu desculpa aos seus "amigos intelectuais", mas Portugal devia mais a Cristiano Ronaldo e a outros - do que não se sabe a quem, porque não esclareceu. Esperava-se, de Marcelo, um outro modo de ver, um ponderado rogo de reflexão, um trémulo apelo ao bom-senso. Com a convicção vigorosa que se lhe reconhece rojou-se aos pés dos seleccionados, ao mesmo tempo que ironizou das opiniões daqueles, manifestamente hostis ao empreendimento de imbecilização. Ao contrário de Rui Santos, jornalista especializado em futebol, que se não coibiu de criticar o exagero do circo, chegando a designá-lo como "alienação".

Alienação muito bem montada e insuportavelmente apoiada pelas televisões, pelas rádios e pelos jornais. Esta ambição do aparato impede a mais módica posição crítica daqueles que, apreciando o jogo (o meu caso), não entram na peripécia irracional e não se intimidam com a algazarra. Acaso haveria razão para a euforia, se a selecção tivesse chegado ao fim do Euro como ganhadora. O dr. Cavaco, habituado a deixar, na sua passagem pelos acontecimentos, admiráveis vestígios de oratória, aconselhou os futebolistas, recebidos, com emoção, em Belém, a olhar para o Tejo, inexaurível fonte de inspiração! O sr. Presidente estava, de certeza, a estabelecer comparações entre aqueles indómitos desportistas e os heróis escorbúticos que partiram do Cais Novo, há cinco séculos, para dar "novos mundos ao mundo". Foi um momento inesquecível. Um daqueles instantes irrepetíveis que marcam a palavra verdadeira, leal, civilizada, contra a desconsolação, a inércia, o abandono!

Conhecemos, através das televisões, um povo verdadeiramente feliz, gritando, apopléctico, a responsabilidade cumprida de cidadania e civilidade. Um povo enérgico, expondo, como elevado título, a radiosa coragem de estar no desemprego, de ser imigrante por carência absoluta de trabalho e de esperança no País onde nasceu - e que cauciona, com júbilo, a desgraça como virtude.