15.7.09

Nem toda a água de um rio apagará a memória


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Imagem "emprestadada" pelo blogue "Preia-Mar"

Primeiro Acto.
A coisa começou com a reportagem da RTP sobre uma visita de barco a Tróia organizada pelo Bloco de Esquerda, uma iniciativa com a intenção de mostrar ao país que o empreendimento Troia Resort está a ter como consequência clara a expulsão dos setubalenses das areias da península. Na reportagem, o jornalista do canal público afirmou que “o bloco critica as câmaras comunistas de Grândola e Setúbal”. Um erro: a câmara de Grândola é, desde há anos, dirigida por um presidente eleito nas listas do Partido Socialista, Carlos Beato.

Não sei se a informação da voz off da reportagem teve origem nalguma voz in dos autores da iniciativa política. Sendo o comentário da reportagem da responsabilidade do jornalista, o que nele é dito afecta só a sua credibilidade, mesmo que o tenha ouvido em discurso directo de um dos intervenientes. Aos jornalistas é exigido que não acreditem em tudo o que lhes é dito. É por isso que não basta ter-se uma câmara e um microfone para se ser jornalista.

Assim, se é lapsus linguae de político, dependendo da circunstância, deve ser corrigido na altura e o “produto final” apresentado aos telespectadores com rigor. Chama-se a isso saber distinguir a Notícia do fait divers – está bem, dirão alguns, conhecendo-se o jornalismo que se faz por aí, na base do bizarro, isso faria “ganhar o dia” a muitos portadores de microfones e carregadores de câmaras da nossa praça; todavia, se é referência mal-intencionada, o jornalista deve denunciá-la: “Os autores da iniciativa política nem sabiam quem mandava politicamente do outro lado do rio”. Isto seria uma notícia, mas não foi isso que aconteceu.

Se um jornalista não deve ser um megafone de tudo o que lhe é dito, um comentador não deve acreditar em tudo o que vê na tevê: dias mais tarde, o coordenador nacional autárquico do Bloco de Esquerda, Pedro Soares, também “entregou” a Câmara de Grândola ao PCP na sua coluna de opinião no “Jornal de Notícias”.

Se de uma reportagem se espera rigor, já que a sua falta assassina a credibilidade de um órgão de informação, de um artigo de opinião só se espera ver discutida a opinião, não a fiabilidade das informações que incluiu no argumentário. Parafraseando José Mário Branco, se um artigo de opinião é “uma arma”, não faz sentido dispará-la contra os próprios pés.
Disto isto sobre isto, fico-me por aqui sobre isto.
Rigor, minha gente. Avancemos.

Segundo Acto.
Miudezas, pensarão os que me lêem.
Não é bem assim. Em Tróia está a ser cometido um crime lesa-património ambiental e humano perante a vista de todos. Convenhamos que ser acusado indevidamente de participar ou calar o acto não será agradável para um partido de Esquerda. Entretanto o Pedro Sales já corrigiu o que escreveu na reprodução do seu artigo no Esquerda.net. Um conselho de amigo: devia começar por fazê-lo na sua próxima rubrica no “Jornal de Notícias. Rigor, lembra-se?

Terceiro Acto.
Parte dos militantes do PCP não acreditou na correcção e aproveitou o ensejo para dar continuidade, na base, à campanha que o seu “Avante” continua a fazer contra o Bloco de Esquerda, pelo menos a julgar pelo agitar constante das ondas da Net, onde o caso continua a ser “escalpelizado”, com calúnias e ofensas a tudo o que faça alusão ao Bloco de Esquerda.

Para certas pessoas do PCP, nem a denúncia sistemática de Tróia como crime do Privado contra o Público por parte do Bloco o faz merecer ser de Esquerda. Isso é que conta. O resto, os enganos quanto aos donos das câmaras municipais, é tempero para indefectível comer, areia para os olhos. Deixemo-nos de tretas e falemos do que interessa.

Quarto Acto.
Falemos então de areia, da areia de Tróia. Regressemos uns anos atrás, quando as torres da “Soltróia” ainda estavam para ser implodidas e o negócio ainda se fazia nos corredores apressados do governo de Sócrates.
Nesses tempos, do outro lado do Sado, no Concelho de Grândola, a sede do município tinha um presidente chamado Fernando Travassos. Este sim, da CDU, que dizia “bater palmas” ao projecto do Troia Resort. Preto no branco. A entrevista está disponível no “Setúbal na Rede”.

Ao contrário de alguns militantes do PCP que não perdoam os pecados individuais de qualquer membro ou candidato do BE, mesmo que independente, para daí teorizarem sobre as “origens de classe” de todo um partido, aqui deste lado procura-se encarar a coisa de outra maneira: distingue-se opiniões pessoais de posições oficiais, porque não se confunde prática política com arregimentação de carneiros acéfalos e obedientes.

Por isso afirmo, sem ironia, que tenho a certeza que muitos militantes do PCP não se reviram na opinião do “seu” presidente de câmara de Grândola. Atrevo-me mesmo a especular, não passa disso, que nem Fernando Travassos diria o mesmo do projecto de Tróia sabendo o que vai por lá hoje.
A gente do PCP, tal como a gente do Bloco de Esquerda, pagará o mesmo preço do bilhete de barco. É isto que conta. Mais uma razão para a presidente da câmara de Setúbal, do PCP, não ter deixado o Bloco a “pregar” sozinho contra Belmiro. Se fosse ao contrário, não duvido, “o bloco estaria feito com os interesses do grande capital”.

Epílogo.
Todavia, e para concluir este texto que já vai longo, atribuo a chegada tardia à luta por Tróia, por parte de Dores Meira, a uma lógica que está a levar à ruína a “honestidade e competência” com que os eleitos da CDU se apresentam ao eleitorado: a cedência à lógica do populismo e a procura desmesurada do prestígio e da credibilidade junto de quem a Esquerda sempre elegeu como adversários, os especuladores.

Vimos isto, também e infelizmente, na incapacidade do executivo do PCP de Setúbal se ter demarcado da “Nova Setúbal”, apesar do PCP da oposição ter sido o único partido a votar contra a urbanização, através da sua vereadora Regina Marques. O PCP, no poder em Setúbal, devia orgulhar-se disso, e não trair um voto de Esquerda consequente que já foi o seu. O PCP, na oposição em Grândola, devia autocriticar-se da posição que tomou quando era governo.

Autocrítica não significa autoflagelação, tampouco fraqueza de convicções, é um sinal singelo de que as celulazinhas cinzentas funcionam. Como todos sabemos, quando um cérebro deixa de funcionar resta ao corpo apenas o nome por que é conhecido. É muito pouco para se viver.


Publicado por
José Carlos Tavares da Silva
no "Setúbal Um Novo Dia"


7.7.09

Bloco de Esquerda denuncia exclusividade do "Troia Resort"

video
Até os roazes fizeram questão de estar presentes...

A este propósito, a reportagem do trissemanário "O Setubalense".

30.6.09

A propósito do "Prós & Contras" de ontem...

Dificuldade de governar

Todos os dias os ministros dizem ao povo
Como é difícil governar. Sem os ministros
O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima.
Nem um pedaço de carvão sairia das minas
Se o chanceler não fosse tão inteligente. Sem o ministro da Propaganda
Mais nenhuma mulher poderia ficar grávida. Sem o ministro da Guerra
Nunca mais haveria guerra. E atrever-se ia a nascer o sol
Sem a autorização do Führer?
Não é nada provável e se o fosse
Ele nasceria por certo fora do lugar.

E também difícil, ao que nos é dito,
Dirigir uma fábrica. Sem o patrão
As paredes cairiam e as máquinas encher-se-iam de ferrugem.
Se algures fizessem um arado
Ele nunca chegaria ao campo sem
As palavras avisadas do industrial aos camponeses: quem,
De outro modo, poderia falar-lhes na existência de arados? E que
Seria da propriedade rural sem o proprietário rural?
Não há dúvida nenhuma que se semearia centeio onde já havia batatas.

Se governar fosse fácil
Não havia necessidade de espíritos tão esclarecidos como o do Führer.
Se o operário soubesse usar a sua máquina
E se o camponês soubesse distinguir um campo de uma forma para tortas
Não haveria necessidade de patrões nem de proprietários.
E só porque toda a gente é tão estúpida
Que há necessidade de alguns tão inteligentes.

Ou será que
Governar só é assim tão difícil porque a exploração e a mentira
São coisas que custam a aprender?"

Bertold Brecht

29.6.09

"Quando a Tróia Era do Povo" chega à 4ª Edição.

Imperdoável ainda não ter falado aqui no sítio deste livro assinado por um Colectivo do 9º Ano da Escola Secundária D. João II, de Setúbal!

Um pequeno livro cujo sucesso já "obrigou" os autores, professores e alunos da secundária D. João II, a fazerem quatro edições para dar resposta aos pedidos das livrarias de Setúbal.
O livro custa cinco euros e corresponde a um trabalho baseado em entrevistas feitas pelos alunos a várias gerações de setubalenses. Para ilustrar, um conjunto de fotografias cedidas por particulares e pelo arquivo fotográfico municipal com origem na objectiva de um homem, Américo Ribeiro, a quem Setúbal muito deve devido ao inestimável espólio fotográfico que deixou à cidade.

Qual a razão do sucesso deste pequeno livro? A nostalgia dos verões da meninice passados a brincar na areia fina e nas águas de Tróia? Em parte, já que a memória não pertence a tão poucos assim: "a Tróia" tinha areia que chegasse para as gentes de todas as condições.

Apesar da Soltróia e dos erros urbanísticos aí ocorridos, Tróia tinha produtos para várias carteiras e um parque de campismo, tinha gente de todas as classes. Depois chegou a degradação da parte turística, a construção de condomínios de segunda habitação, os campos de golfe nas zonas dunares, mas também havia um festival de cinema, o Festroia, e muitos turistas, que iam dos nacionais de outras paragens aos operários metalúrgicos da Volvo da Suécia. Os barcos, o ferry-boat e o "convencional", este uma espécie de "cacilheiro", enchiam-se de gente. Havia gente em Tróia.

Além disso, a Praia de Figueirinha e as outras do outro lado do Rio Sado, na Arrábida de águas mais frias, ficavam mais longe num país que ainda não se tinha enfiado dentro dos automóveis. O bilhete de barco para Tróia era mais barato e o transporte mais rápido. Tróia era, conforme diz o título do livro, "a praia do povo".

Foto de Américo Ribeiro, datada de 1957 e integrante do livro.
O cais foi até há pouco tempo o local de desembarque dos veraneantes.
A praia ao lado, a mais popular entre os mais idosos e as crianças,
por causa da "força do ar da costa", foi destruída pela marina
e
por edifícios a poucos metros da linha de água.
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Entretanto, ao mau funcionamento da Soltróia juntou-se o abandono propositado e a degradação dos equipamentos, piscinas, etc. Pelo caminho, o parque de campismo foi fechado devido à "falta de condições".

Depois, a receita do costume: entregar ao desbarato um recurso de todos aos interesses privados sob a promessa da "modernização". Mais um PIN, Projecto de Interesse Nacional.

No caso, Tróia foi servida de bandeja ao paradigma nacional dos negócios de lucro fácil e do capital intensivo, Belmiro de Azevedo. Pelo meio, a perspectiva de um Casino a fazer brilhar de cobiça os olhos do um autarca de Grândola a sonhar com o dinheiro que lhe permitirá acrescentar "obra" àquela que tem deixado implantar nas zonas dunares e agrícolas ao longo da costa alentejana... O facto de Tróia pertencer ao Concelho de Grândola não foi a única justificação para que o "Debate Público" sobre o projecto fosse agendado para Grândola, para bem longe daqueles que historicamente usaram as suas praias.

A campanha de publicidade ao empreendimento começou com anúncios de modernização, promessas de "turismo de qualidade" e muitos postos de trabalho - dez mil, faziam noticiar na imprensa. O facto do projecto turístico não contemplar um parque de campismo moderno era apenas gato escondido com rabo de fora... Não se aceitava que se dissesse que se corria o risco dos setubalenses algum dia ficarem arredados de uma zona que contribuiu para o nascimento da Cidade de Setúbal desde antes dos tempos da romanização.

Perante o fogo de artifício mediático e o silêncio cúmplice dos jornais "de referência" que obedecem à mesma voz do dono das construções, e a falta de espírito crítico de um município setubalense colaborante que só há pouco e com eleições municipais à porta se preocupou com a situação, a cidade ficou na expectativa e até se dividiu perante o empreendimento. Mesmo assim, ainda antes do espectáculo da implosão dos edifícios, já o extraparlamentar PSR fazia chegar aos deputados milhares de assinaturas a contestar a usurpação, no que terá sido, porventura, o abaixo-assinado mais fácil de recolher na história de Setúbal.

A um Estado incompetente em gerir um recurso natural e histórico de valor inestimável, juntou-se a oportunidade do negócio exclusivo. Com a desculpa do turismo, a construção maciça de segunda habitação para rico desfrutar. E o autarca "socialista" de Grândola a sonhar com o dinheiro das licenças de construção e do imposto autárquico...

José Sócrates, também "socialista" rendido aos valores da especulação imobiliária, o mesmo que patrocinou a co-incineração do outro lado do rio no meio das crateras da cimenteira Secil (convenientemente tapada digitalmente nos primeiros vídeos de apresentação do empreendimento), lá foi fingir a ignição da implosão das duas torres que teriam ficado mal construídas desde os tempos da Soltróia.

Vista do Sado a partir do Bairro do Casal das Figueiras

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Hoje, os velhos ferrieboats a preto e branco da Transado, que transportavam pessoas e automóveis para o outro lado do rio, foram substituídos por outros de uma toda modernaça cor verde-alface... de estufa. Não foi só a cor das embarcações que foi alterada, o trajecto também, que passou a ser mais longo e feito para o interior do rio, para um antigo embarcadouro dos fuzileiros e pelo meio da rota de alimentação dos famosos golfinhos de Setúbal - de facto, roazes corvineiros, uma comunidade em declínio acelerado e já considerada em extinção pelos biólogos marítimos.

Para colmatar a distância do cais às praias da costa, a empresa de Belmiro colocou autocarros para levar as pessoas do cais dos ferrieboats para a costa. E fez cair sobre os "clientes" a duplicação do tempo de viagem e sobretudo o preço de acesso às praias. As embarcações que transportavam exclusivamente pessoas estão paradas no estaleiro, anunciaram-se novos hovercraft para os substituir mas estes ainda não apareceram - hovercraft, já os ouve no Rio Sado, mas desapareceram: dentre outras razões, o preço era tão proibitivo que os "convencionais" mantiveram a preferência dos setubalenses.

Quem pretender fazer o caminho a pé ao longo da costa terá à sua frente vedações e seguranças que o demoverão de passar na "propriedade privada". Uma repetição do abusivo impedimento da passagem pelo meio das urbanizações construídas em redor dos antigos caminhos de acesso às praias, iato num país que escreveu na Constituição que a orla marítima é de Direito Público e que não reconhece a existência de praias privadas... A desculpa: “os abusos” de alguns . A velha desculpa dos gestores incapazes de defenderem o Bem Público, e de quem encontra aí o argumento-chave para convencer os idiotas úteis quando é necessário acabar com o que é de Todos e de Todas.

Tróia vista do cima da Arrábida

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Uma volta pelo cimo da Arrábida em dias de calor diz tudo acerca das consequências do que já foi feito: As praias da Arrábida plenas de pessoas e as areias divididas da serra por um cordão anárquico de automóveis. E a Tróia tão perto e tão longe, vazia de gente e cada vez mais cheia de vivendas... O Troia Resort - como não podia deixar de ser, em língua de "camone" -, um enorme embuste.

savesave

25.6.09

Plágio

23.6.09

A propósito do Irão

Comentário inserido no "Arrastão":

"O que demonstra que não basta haver eleições para existir Democracia.
Não acredito nos dirigentes iranianos, mesmo que sufragados por eleições com a chancela democrática ocidental, dos mesmos países que se viraram contra a ditadura iraquiana fazendo recurso à mentira.
"Não há almoços grátis", democracia muito menos.
A democracia é o "poder do povo" ou não é democracia. Não o poder de persuasão dos media, como em Itália. Falamos de democracia em Itália, e já agora na Madeira?
Mesmo que que os resultados fossem "justos", apoiaria a luta dos jovens "desordeiros" iranianos que se querem libertar do Estado teocrático, assim como apoiei os jovens "desordeiros" gregos contra a violência policial e o Estado que os condena ao desemprego e ao ensino mercantilizado.
Pois, a Revolução só foi gira em 1968, com muito "flower power" e "rock & roll". Revoluções destas põe o capitalismo à venda nos hipermercados.

É por isso que há uma revolução nas ruas e nos campos da América Latina e só conseguem distinguir no meio do turbilhão as patacoadas populistas do Hugo Chávez.
Já não é a Revolução, os revolucionários, acidentais ou não, também já não são o que eram..."

Portugal disposto a aceitar caça costeira à baleia

Passou sem grande estardalhaço na imprensa:
"Portugal admite o regresso de alguma caça à baleia a nível internacional, em troca de mais medidas de conservação para os grandes cetáceos. Aproximar as posições pró e contra a caça à baleia é a postura que o país está a manter na reunião anual da Comissão Baleeira Internacional (CBI), que começou hoje no Funchal, Madeira." (link para o "Público")

A caça comercial à baleia está sujeita a uma moratória, em vigor desde 1986. Mas o governo japonês contornou o "comercial" organizando expedições "científicas" cujas capturas aparecem depois esquartejadas nos enormes mercados de pescado nipónicos. Em resultado do expediente, não raras vezes vemos nas televisões confrontos em alto-mar entre baleeiros e activistas da Green Peace que procuram denunciar e evitar as tais "expedições científicas" com a bandeira do sol nascente.

A posição do governo português, como é costume, só podia de ser de "compromisso": Aceita a caça costeira à baleia. Uma posição que reside no seguinte pressuposto: elas podem-se reproduzir em alto-mar, mas quando se aproximarem das costas dos oceanos levam arpão no lombo...

Pelas mentes delirantes de algumas daquelas cabecinhas deve estar a passar a ideia de reactivar a caça à baleia nos Açores, assim a modos que o reactivar de uma "tradição cultural", uma espécie de tourada para turista ver. Se os industriais dos touros criam os animais para o "espectáculo", neste caso será a Natureza a repor os stocks. Controlados, imaginamos, por cientistas iguais àqueles que os japoneses largam em perseguição dos cetáceos oceanos afora.

Como se sabe, as baleias estavam perto da extinção antes da campanha mundial que resultou na moratória agora em vigor. Apesar das ameaças dos japoneses e de outras frotas em busca do lucro "científico", os animais recuperaram e estavam a retomar o seu papel no eco-sistema. Esta cedência aos interesses dos baleeiros é um recuo civilizacional.

É esta gente que nos está, à Humanidade, a conduzir rapidamente ao ponto de não-retorno ambiental. Cada espécie que desaparece pela acção do Homem é menos um segundo para o extermínio da Humanidade, porque é o Equilíbrio Ambiental que nos permitiu ter sucesso enquanto espécie que está a ser desafiado.

Por outro lado, desde a implementação da moratória da caça à baleia, desde que os animais começaram a ter oportunidade de se reproduzirem e aparecerem em mais quantidade junto às costas, nasceu uma nova actividade, ligada ao turismo, de observação de baleias. Uma actividade que sendo regulada para que não resulte em prejuízo dos animais pode gerar riqueza para as comunidades costeiras - obviamente, não como aquilo que miseravelmente acontece no Sado com a perseguição aos roazes corvineiros, sem quaisquer controlos das autoridades!

O conhecimento científico desde Darwin demonstra que todas as espécies estão interligadas, basta desequilibrar o número de uma espécie determinada para que o seu predador natural seja também afectado, e vice-versa.

Hoje as preocupações dos defensores do planeta viram-se para espécies como a do Tubarão que também está à beira da extinção, porque na Ásia gostam muito de barbatanas - muitas vezes o resto da carcaça do animal é atirado ao mar...
E depois, a globalização dos gostos. Há dias vi pela primeira vez no Pingo Doce de Setúbal uma carcaça de tubarão à venda... Enviar-lhes para o site um protesto com a ameaça de que poderão perder clientes não será má ideia, pois não?

Não há muito tempo as televisões mostraram agressões de pescadores a ecologistas que pretendiam entrar nas suas embarcações, para fazer o que os governos se negam a assumir de forma organizada: controlar o que se arranca ao oceano e em que quantidade. Na ocasião era por causa do Atum, outra espécie quase extinta pela sobre-exploração.

No caso da pesca do atum, há um "dano colateral" sobre outra espécie: o Golfinho. As redes utilizadas pela indústria pesqueira do atum têm aprisionado e condenado à morte milhares dos simpáticos mamíferos. A luta contra este estado de coisas conseguiu, pelo menos nos E.U.A., que os industriais dos atuns façam constar nas suas embalagens que as técnicas de pesca salvaguardaram os golfinhos, e são fiscalizados para que isso seja verdade.
Para tal, foi preciso lutar. Contra os industriais e contra a falta de sensibilidade dos media e, em consequência, das pessoas.

É uma guerra que para já, enquanto não forem impostas quotas de pescas séria e cientificamente decididas, continuará a fazer vítimas entre o pescado que desaparece de forma acelerada e os pescadores que se afundam com as redes vazias. No fim, um oceano deserto dentro e sobre a água. E um oceano deserto terá como consequência a fome em terra.

Não, já não se trata de uma luta de "amigos dos animais" contra gente que "procura ganhar honestamente a sua vida". É na sobrevivência da Humanidade que devemos pensar quando vemos/lemos estas notícias.

Uns têm a coragem de dar a cara pelas espécies em desaparecimento outros, os armadores, pescam-nas e atiram-nas ao mar para não baixarem os preços. É a "lei do mercado". O maldito capitalismo que convive com o desperdício e a fome e vai abrindo a cova onde nos enterrará a todos depois da Natureza.

Uma luta que tem de ser feita agora, passo a passo, e pelas coisas e assuntos mais "insignificantes". Pela "meia-dúzia" de sobreiros que deitam abaixo para construírem edifícios ou campos de golfe que não precisamos, contra a construção sem critério de barragens que roubam espécies e sedimentos ao resto do rio - por que julgam que falta areia na Costa de Caparica?!

No caso concreto da caça à baleia, se os japoneses gostam muito de bife de baleia, nós também podemos deixar de gostar de conduzir Toyotas e Hondas... É preciso que o mundo lhes faça saber, eles que escolham.

Faltam tomates. Não é de vegetais que falo...
Retornando ao motivo da abertura do texto, é absolutamente vergonhosa a posição do governo português sobre a caça à baleia. O costume, quando têm de defrontar os interesses dos poderosos. São uns capados.

20.6.09

Ainda a propósito da Autoeuropa.

Da caixa de comentários do "Público":
"O sr. [...] fala do que não sabe e, com o seu ódio a António Chora, não esconde de onde vem e ao que vem. A CT eleita pela maioria esmagadora dos trabalhadores da Autoeuropa não faz como a maioria dos sindicatos, que têm um discurso muito aguerrido e vêm depois falar de "acordo possível" quando assinam acordos sem consultar os trabalhadores. Os trabalhadores da Autoeuropa têm à sua frente uma administração que QUER FECHAR A EMPRESA, o argumento dos sábados foi uma provocação - lembra-se das pressões ocorridas durante as negociações, até nas páginas deste jornal? A CT esteve a negociar debaixo de dois fogos: da administração e dos Belmiros deste país... e debaixo de fogo do PCP que antes de tudo odeia que a CT da maior concentração operária do país tenha uma maioria daqueles que eles gostam de chamar de "esquerda caviar". Pois, meu "amigo", a decisão dos trabalhadores da Autoeuropa, SEJA BOA OU MÁ, foi tomada por VOTO SECRETO e democrático e sem chantagens. Espero bem que o vosso ódio (do PCP) e desejo de extermínio do BE não seja feito à conta do emprego dos trabalhadores. OS MEIOS DIZEM MUITO DOS FINS QUE SE PROCLAMAM!"