19.2.13

O que Beatriz Talegón não disse e deveria ter dito

O título desta entrada reproduz o título de um interessante artigo de Vicenç Navarro (1), que a seguir se reproduz na íntegra, publicado no jornal "Público" (Espanha). A tradução é de um colaborador deste blogue.


Teve grande repercussão na rede [Internet] o vídeo em que Beatriz Talegón, Secretária Geral da União Internacional da Juventude Socialista, critica a Internacional Socialista (IS) por ter perdido a sua vocação transformadora da sociedade e do mundo, tendo-se acomodado ao poder, insensível às necessidades daqueles sectores da sociedade que os viram um dia como o instrumento que tais sectores (geralmente os mais vulneráveis ​​da sociedade) usariam na defesa dos seus interesses. O simbolismo de que a reunião da IS tivesse ocorrido num hotel de cinco estrelas, com muitos dos seus delegados a chegar ao hotel em carros de luxo – dizia Beatriz Talegón – mostrou o grau de acomodação ao poder económico e financeiro, e o seu estilo de vida.

Beatriz Talegón assinalava, como indicador desta perda de capacidade transformadora, o facto de que os movimentos pró-democracia que vêm ocorrendo em todo o mundo, tendo-se iniciado no Norte da África, na Tunísia primeiro e no Egipto depois, apanharam a IS de surpresa. Na verdade, a IS era totalmente alheia – segundo a líder da Juventude Socialista – à mobilização das populações desses países em busca da liberdade e da democracia.

Alegrou-me ouvir aquela voz de protesto e denúncia que eu coloquei no meu blogue [link colocado no fim deste texto]. A amplíssima distribuição deste vídeo parece reflectir uma ampla aprovação de tal denúncia. Há um enfado generalizado das bases dos partidos socialistas com os seus líderes, e era a esperançoso que, finalmente, aparecessem vozes de protesto.

Agora, tendo dito isto, preocupa-me que a situação seja muito pior do que a apresentada e denunciada por Beatriz Talegón. A acomodação de muitos partidos socialistas ao poder é pior do que a denunciada por Beatriz Talegón. A distância entre a narrativa do discurso oficial dos partidos socialistas, por um lado, e o estilo de vida e o comportamento dos seus líderes, por outro lado, atingiu níveis muito elevados. Mas, repito, a situação é muito pior do que isto, pois a IS tem sido em muitas partes do mundo o maior sustentáculo das estruturas do poder. Isto é, a sua falta (ou o seu pecado, como dizem os cristãos) não é por omissão, mas por comissão. Os partidos da IS desempenharam um papel fundamental na manutenção daquelas estruturas ditatoriais que geraram os protestos populares. Há que recordar que o partido dirigido pelo ditador da Tunísia, Ben Ali, pertencia à IS. E o mesmo ocorria no Egipto, onde o partido do ditador Mubarak também era um membro da IS. Nestes países, os partidos que dirigiam as ditaduras denominavam-se socialistas e tinham sido admitidos na IS. Só no momento em que milhões de pessoas saíram às ruas nesses países é que a IS os desaprovou. Por que os admitiu?

A resposta a esta pergunta é fácil de dar, observando o comportamento dos membros da IS na América Latina. Num excelente artigo, “The Socialist International: What is it good for?” [A Internacional Socialista: Para que Serve?], Social Europe Journal. (08.02.13), infelizmente não publicado em Espanha, David Lizoáin demonstra a colaboração, mesmo a liderança, que os partidos membros do SI tiveram na implementação das políticas neoliberais no continente, promovido pelo Fundo Monetário Internacional, que impôs enormes sacrifícios às classes populares, sacrifícios que geraram enormes protestos, em muitas vezes ocasiões reprimidos pelos Estados governados por partidos membros da IS, causando morte e milhares de assassinatos. Na Venezuela, o governo do Partido de Acção Democrática, um membro da IS, levou a cabo duras políticas de austeridade, que geraram protestos brutalmente reprimidos (mais de 3 mil mortos), sendo ministro de tal governo o Sr. Moisés Naim, hoje comentador do [jornal] “El País” para a América Latina, sem que tal defensor dos direitos humanos sequer piasse. Algo semelhante ocorreu no México, onde o PRI (também membro da IS), outro partido socialista governante, corrupto e profundamente repressivo, foi responsável por um grande número de assassinatos de operários que protestaram contra as políticas de austeridade impostas por tal partido. E o mesmo aconteceu na Bolívia e outros países. Na realidade, foram tais os protestos que criaram como resposta a eleição de partidos de esquerda que inverteram aquelas políticas, e continuam a desfrutar de amplo apoio popular, levando a cabo políticas opostas àquelas que aqueles partidos governantes, supostamente socialistas, impuseram às suas populações. Nenhum destes partidos agora no governo é membro da IS, vista como parte do problema e não da solução.

A IS, incluindo o PSOE, tentaram diferenciar estes partidos governantes, separando o "bons", como os partidos de esquerda no Brasil, Uruguai e Chile, dos "maus", como o da Venezuela, Equador e Bolívia, uma divisão bastante irreal e que não corresponde à situação actual. Lula foi e continua a ser um grande defensor de Chávez, havendo-o definido como o melhor presidente que a Venezuela já teve.

Os partidos socialistas europeus pagam um custo de credibilidade quando (leais aos partidos socialistas latino-americanos que se converteram em baluartes das políticas de austeridade) criticam com grande hostilidade as reformas de partidos governantes como o presidido por Hugo Chávez, [PSUV – Partido Socialista Unificado da Venezuela] o qual demonizaram. O Presidente Chávez é altamente popular entre as classes populares da Venezuela.

A urgente e necessária autocrítica de tais partidos

Uma última observação. Frequentemente recebo críticas por referir-me aos partidos que se autodefinem de social-democratas, que governaram o Estado espanhol e as Comunidades Autónomas, como partidos de esquerda. O facto de que muitas das suas políticas económicas não foram socialistas quando governaram, explica que se considere a minha definição de tais partidos como sendo de Esquerda como errónea. Mas um partido é muito mais do que a sua direcção, a sua burocracia ou a sua nomenclatura. Um partido é uma instituição colectiva constituída pelos seus membros, simpatizantes e eleitores, que partilham uma cultura, uma narrativa e uma história. A maioria dos militantes e eleitores de tais partidos são ou consideram-se de Esquerda. E as sondagens credíveis mostram que, em geral, a base daqueles partidos, assim como os seus simpatizantes, adoptam, crêem e simpatizam com os valores da Esquerda. Na realidade, é o desencanto de tais bases que explica a deterioração eleitoral de tais partidos.

É um erro que, partidos tão pouco democráticos como são os partidos políticos de Espanha, se considere as decisões dos seus dirigentes como representativas da opinião da maioria dos seus militantes, simpatizantes ou eleitores. Daí o paradoxo de que os partidos de esquerda estejam a desenvolver políticas de Direita. Convenhamos, a lealdade institucional e cultural tem os seus limites. E o enorme desencanto das bases de tais partidos explica o seu grande declínio. O caso do Partido Socialista Italiano é o exemplo mais claro disso. Na realidade, o maior problema de tais partidos é a crescente distância entre os seus aparelhos e as suas bases. Um número muito grande de tais aparelhos são profissionais e com diplomas universitários que desenvolvem contactos e cumplicidade com as instituições que dominam a vida política e económica do país. Assim, é frequente que as políticas económicas não sejam realizadas por pessoas provenientes das bases de tais partidos mas por profissionais de instituições que dominam as culturas económicas do país. Estabelece uma porta giratória entre os profissionais dos partidos socialistas e as instituições do sistema financeiro e económico que está a atingir limites escandalosos. A grande maioria dos economistas que trabalharam nas administrações socialistas de elevado poder de decisão está hoje a trabalhar em empresas, na banca e em associações de empresariais que configuram a estrutura do poder financeiro e económico do país. E é aí que reside a raiz do problema: a captura das elites governantes em tais partidos pelos interesses económicos e financeiros que dominam a vida política do país.



(1)   Vicenç Navarro foi professor Catedrático de Economía Aplicada na Universidade de Barcelona. Actualmente é Catedrático de Ciências Políticas e Sociais, Universidade Pompeu Fabra (Barcelona, Espanha). É también professor de Políticas Públicas em The Johns Hopkins University (Baltimore, EUA) aonde vem exercendo docencia há 35 anos. Dirige o Programa em Políticas Públicas e Sociais patrocinado conjuntamente pela Universidade Pompeu Fabra e The Johns Hopkins University. Dirige também o Observatório Social de Espanha. É um dos investigadores espanhóis mais citados na literatura científica internacional em Ciências Sociais.

Página pessoal: http://www.vnavarro.org/