27.10.09

Assim se compromete o futuro.

"Já só faltam 70 metros de túneis para que o rio Sabor seja desviado", é o título de uma notícia que aparece na rubrica "Ecosfera" do jornal "Público".
É uma notícia triste, o último rio selvagem da Europa vai ser "domesticado". Não em nome de uma necessidade incontornável de energia que justifique o fim do testemunho da natureza tal qual ela é, mas em nome do consumismo irracional alimentado por uma empresa privatizada que (por isso!) age mais de acordo com os interesses imediatos dos seus accionistas que pela sorte das futuras gerações.

Procurando algo na "rede" sobre o Rio Sabor, não foi difícil dar com a petição em sua defesa e verificar que o site da Plataforma em defesa do rio não funciona, vá-se lá saber por quê.
Todavia a busca não foi infrutífera. Com a devida vénia ao(s) seu(s) autor(es) ou autora(s), deixo aqui um texto que descobri aqui. Apesar de já ter alguns anos, está lá tudo, não tenho mais nada a acrescentar.

Bem... talvez isto: Aqui pelas zonas do Sado também tivemos um presidente de câmara, Mata Cáceres, do PS, que dizia que a Serra da Arrábida e o golfinhos do Sado não davam de comer a ninguém. A figura foi "c'os porcos" pelo voto popular, uma tomada de consciência tardia que não obstou que o imbecil deixasse "obra" de sobra ao longo de 16 anos, os suficientes para comprometer o futuro da Cidade de Setúbal.
O drama deste país não é só ser pobre, é a sua população deixar que os pobres de espírito mandem na pouca riqueza que sobra.


Enfim, o texto prometido. Abro aspas:

"Por estes dias o governo português prepara-se para tomar a decisão de avançar ou não com a construção da barragem do Baixo Sabor.

Apesar de todos os pareceres negativos do ICN e dos especialistas, este projecto continua em cima da mesa do governo em Lisboa. E este projecto só é ainda uma possibilidade porque Portugal é um país cujos governantes ainda insistem na falsa-possibilidade de se desenvolverem à custa da destruição e manipulação do que mais importante têm a par dos seus habitantes: o seu território.

Enquanto isto acontece em Portugal, outros países, como a França e os EUA, iniciam hoje processos de desmantelamento de projectos hidroeléctricos. As barragens, está á vista de todos os que delas tanto esperaram, provocam alteraçoes de tal modo profundas e negativas que numa perspectiva de longo prazo, que é a perspectiva que deve orientar a governação de um país, raramente são justificadas.

É este o caso concreto do Baixo Sabor. Estamos em presença de uma paisagem única no mundo e em Portugal. Existiu em mais locais da bacia hidrográfica do Douro, mas as barragens até agora construídas determinaram o seu fim.

É pois um dos últimos rios cujo curso corre tal qual a Natureza o decidiu. Não tem barragens. Nem foi desviado. A Natureza, juntamente com a acção humana permitem-nos desfrutar hoje, início do séc. XXI, de um ecossistema mediterrânico, onde existe espécies de fauna e flora únicos. e onde o Homem extrai, entre outros produtos, azeite e cortiça de altíssima qualidade.

Se mais razões não houvessem para deixar o Sabor Livre de Barragens bastaria esta:

O Vale do Sabor é uma Arca de Noé a custo Zero. Isto é, um arquivo vivo que vai permitir aos nossos descendentes repovoar os vales dos rios intervencionados com as espécies originais, quando daqui a 50 ou 60 anos tiverem de desactivar as barragens construídas no passado.

Sim. uma barragem destrói irremediável e irreversivelmente o que foi desenvolvido durante dezenas de milhares de anos e dura apenas 50 a 60 anos.

As populações desta zona de Trás os Montes (concelhos de Alfandega da Fé, Torre de Moncorvo , Mogadouro e Macedo de Cavaleiros) estão favor da construção desta barragem. É compreensível. Trata-se de uma região e de uma população que foram - podemos dizê-lo- literalmente abandonadas pelo poder central à sua sorte.

Mas podermos também dizer-lhes que contrariamente ao que lhes é dito pelosa seus presidentes de câmara, esta barragem só lhes vai levar algum desenvolvimento durante os anos em que estiver a ser construída. Será um desenvolvimento reduzido e de que só alguns aproveitarão. Como em Moura, no Alentejo, durante a construção do Alqueva, os trabalhadores virão da Europa de Leste e do Norte de África. As empresas levarão a sua logística e no máximo comprarão localmente umas refeições e umas dormidas.

Nenhum turista irá ao Sabor ver o espelho de água da albufeira. Esta será igual ás tantas outras 200 albufeiras já existentes em Portugal. Visitem a paisagem triste e lunar de Vilarinho das Furnas e convençam-se que o Sabor, como está, atrairá no futuro muitos, mas muitos mais turistas.

O Sabor irá produzir apenas 0,5% das energia eléctrica actualmente consumida em Portugal. Não é nada. Não tem expressão alguma. E se queremos cumprir as metas do protocolo de Quioto, como o governo advoga, existem outras alternativas bem mais viáveis. Em França, um pais europeu que serve tantas vezes de exemplo quando nos queremos comparar com o que se faz lá fora, o governo juntamente com os media e a sociedade em geral estão envolvidos num programa de poupança e redução do consumo de energia. É essa é a via a seguir. Não a construção de mais barragens.

Que se exija antes que as autoridades criem as condições para explorar o enorme potencial que existe nos Vales do Rio Sabor. na sua Natureza e nos produtos que nela são produzidos. E que continuemos a desfrutar do privilégio de o ter no nosso património. Todas as outras espécies irão agradecer e, sobretudo, os humanos que à frente se seguirem irão apreciar a decisão de lhes de deixarmos este legado."

Sem comentários: