8.8.06

Incúria no Creiro

A Praia do Creiro é uma das mais bonitas da Arrábida, é a praia que tem à sua frente uma pequena ilhota, lar de gaivotas, conhecida por Pedra da Anicha.

Até há poucos anos só se podia ter acesso a esta praia através de carreiros de pescadores, serra abaixo, ou pelo areal, entrando-se pelo Portinho da Arrábida. A construção de vários parques de estacionamento veio substituir os antigos caminhos, e hoje é possível deixar o carro num desses parques e percorrer algumas dezenas de metros de escadaria até onde o Rio Sado se encontra com o oceano.

Para evitar o escorrimento de lamas através do alcatrão "invasor", foi montado um sistema de drenagem das águas pluviais que desagua no fundo da encosta num filtro natural de pedras de diversas espessuras que absorve e filtra a água que é conduzida ao subsolo junto à areia da praia.

À esquerda do início da escadaria que conduz à Praia do Creiro, há uma pequena escavação arqueológica que mostra um pouco do que resta da ocupação romana da zona. Bem documentada, tem uma belíssima vista para o Portinho. Um lugar magnífico para se estar.

Quase no fundo da descida, vale a pena deixar a escadaria e apreciar um trabalho de azulejaria que enquadra a Fonte da Paciência. Há diversos bancos para se estar. Esta fonte é usada sobretudo por quem vem da praia e ali quer deixar os últimos grãos de areia antes de entrar no carro.

Os parques de estacionamento não são gratuitos, mas não são os serviços do Parque Natural da Arrábida que cobram o que quer que seja: logo que o sol começa a fazer sentir o seu calor aparecem por lá uns funcionários da Santa Casa da Misericórdia de Azeitão que cobram pelo estacionamento – este ano são 2 Euros, um preço vem aumentando de ano para ano.

Para quem não quer ou não pode pagar há um pequeno parque no cimo da serra ou, como acontece na época alta, a borda da estrada. Quando os parques de estacionamento estão cheios, os diligentes funcionários da Santa Casa até cobram pelo estacionamento à beira da estrada que conduz aos parques, não se perde um cêntimo...

Para que serve, afinal, o dinheiro do estacionamento?

Não sendo muito agradável ter de pagar pelo estacionamento após os 20 quilómetros Arrábida acima e Serra abaixo (no caso dos setubalenses), seria legítimo que se fosse confrontado com a justificação de que os 2 Euros seriam para o fundo do Parque Natural da Arrábida. Uma fonte de receitas para proteger e melhorar o usufruto daquilo que é de todos e também dos que ainda não nasceram - é esta a filosofia dos parques naturais, deixar algo como era, livre do presente, para o futuro.

Poder-se-ia afirmar, deixando difícil a réplica, que os muitos Euros pagos pelos milhares de automobilistas que utilizam o parque durante a Primavera e o Verão serviriam para arranjar os miradoiros que há no cimo da Serra da Arrábida, para lhes colocar bancos, binóculos, mapas, cartazes explicativos da fauna e flora que se pode observar... para pagar a patrulhas da natureza, a pessoal com formação para explicar aos turistas o que estão a ver.

Não é isto que acontece. Não há nada a explicar nada nos locais mais frequentados pelas pessoas. Há buracos, lama e nem sítios de recolha de lixo se conseguem vislumbrar - num parque natural!


Equipamento com poucos anos degrada-se por falta de manutenção

Correndo o risco de que alguma daquela verba, que é sacada aos automobilistas, vá parar aos cofres do Parque, custa-me perceber a associação com a Santa Casa - uma das instituições com as mais lucrativas fontes de financiamento do país.

Ainda por cima quando parte do equipamento que tão idilicamente descrevi acima está ao votado ao abandono:

A Fonte da paciência “secou”, está cheia de ervas daninhas e de lixo.

Há um contador de água por detrás que tem a torneira fechada - falta de verba?


As espécies de plantas colocadas ao longo da descida de acesso à praia estão sufocadas por vegetação que cresce sem controlo, o sistema de rega de pontos está danificado.

Afinal para que serve o dinheiro que as pessoas pagam pelo estacionamento, se nem essa zona é sujeita a manutenção?

Não me ocorre que seja o pessoal da Santa Casa, por “graça do espírito-santo”, a fazer a manutenção. Será que o Parque Natural da Arrábida pode dispensar essa fonte de receitas?

Será que os setubalenses, todos os que usufruem da Serra da Arrábida, estão dispostos a permitir a degradação deste património... e o roubo?

4.8.06

Secil fora da Arrábida!

“O ministro do Ambiente, Nunes Correia, justificou hoje a queima de óleos usados e solventes na cimenteira da Secil, no Outão, com a inexistência em Portugal de entidades capazes de fazer a regeneração daqueles resíduos, noticia a agência Lusa.”

«O ministro [Nunes Correia] sabe que há empresas interessadas em comprar os óleos usados [em Portugal] e que até pagam mais» do que vai pagar a cimenteira Secil, afirmou esta sexta-feira à agência Lusa Rui Berkemeier da Quercus.”

“ 'Vamos juntar as pessoas para decidir o que vamos fazer, mas sempre de uma forma pacífica e de acordo com a lei. Estas decisões são sempre tomadas no Verão, para tentar apanhar as pessoas desprevenidas', comentou” [João Bárbara, do Movimento de Cidadãos pela Arrábida].

Entretanto, foi convocada uma reunião de emergência do Movimento de Cidadãos pela Arrábida. É HOJE às 21h30, no Clube de Campismo de Setúbal.


SECIL FORA DA ARRÁBIDA!


A intenção de fazer a co-incineração de Resíduos Industriais Perigosos na cimenteira da Secil, localizada em pleno Parque Natural da Arrábida, já levou às maiores movimentações de cidadãos que Setúbal já viu, e terá sido uma das razões que levou ao esmagamento eleitoral do anterior executivo camarário chefiado por Mata Cáceres (PS).

O Mata Cáceres apoiante do Sócrates Ministro do Ambiente foi humilhado nas urnas e substituído por uma maioria absolutíssima da coligação do PCP chefiada pelo anterior presidente do município de Palmela, Carlos Sousa. A principal coadjuvante de Mata Cáceres, Teresa Almeida, foi entretanto premiada com a governação civil de Setúbal pelo Sócrates Primeiro-Ministro.

As alternâncias políticas dos governos e município iludiram a pressão sobre os ares da Arrábida, que aparentemente mantiveram apenas o habitual pó que costuma cobrir as imediações da cimenteira:
A Secil pintou a fábrica, removendo-lhe o cinzento habitual; uma “comissão de acompanhamento”, acompanhou; chegou a pairar misturado com o pó a intenção da administração da cimenteira não querer queimar nada.

Pelo meio, o primeiro-ministro Durão Barroso do PSD aumentou o período de concessão da Secil. Afectado pelo programa do antigo PSR, o Bloco de Esquerda exigiu, sozinho, o óbvio: se a Arrábida é património natural não pode ter uma cimenteira a esventrar-lhe a Serra.

Os anos foram passando e surgiu no horizonte a possibilidade de se avançar com uma coisa há muito exigida: os centro de tratamento de resíduos. Estas unidades industriais que se encarregariam de tratar, dentre outros, a parte mais cobiçada dos resíduos, os óleos e solventes industriais, até acabarariam por surgir no país através da iniciativa privada. Mas pelos vistos falta-lhes a matéria-prima, aquela que o governo pretende agora queimar e juntar ao pó da Secil.

Do outro lado do Sado, em Tróia, a Sonae faz propaganda ao seu “paraíso” de betão implantado sobre as dunas e os golfinhos.

Em todos os planos do vídeo em que aparece a parte mais magnífica da paisagem, a Serra da Arrábida, aparece um pequeno arbusto. Um arbusto digitalmente concebido para tapar as enormes crateras da Secil.

Se a mentira pagasse imposto municipal, Setúbal teria as suas ruas pavimentadas a ouro.